Há lugares que não envelhecem… acumulam histórias!
É estranho pensar que paredes consigam guardar tanto tempo. Mas guardam. Guardam vozes, passos apressados, risadas entre uma aula e outra e até os choros silenciosos no fundo da sala. Guardam segredos sussurrados, promessas escritas a lápis e sonhos rabiscados nas últimas folhas do caderno. O Gomes guarda tudo isso da minha vida. Talvez até um pouco mais.
Foram oito anos como aluna. Oito anos de uniforme, recreios intermináveis, amizades juradas eternas e os primeiros amores.
Quando penso nos anos 1980, me vêm os rostos do Limuta e do Joãozinho Sasso, no bar coladinho ao Pavilhão Canadá, e da tia Luizinha, sempre pronta para frustrar qualquer plano de matar aula.
Naquele tempo, a escola ainda se chamava 1º e 2º Graus.
Eu estava na quarta série quando a escola resolveu cuidar de mim. A professora Ana Maria liderou a missão. O médico havia determinado: nada de risoles, empadas, torradas e, muito menos, bolo de chocolate.
Mas houve um dia.
Depois de um jogo de handebol, comecei a negociar com os colegas.
— Troco uma caneta de dez cores, vinda do Paraguai — um tesouro na época — por um pedaço de bolo.
Nada.
— Troco um estojo com 36 lápis de cor por um bolo inteiro... ou até por alguns farelos.
Só quem conheceu o bolo de chocolate que o Limuta vendia no bar do Gomes entende meu desespero.
Depois de tanta insistência, ele se rendeu.
— Blaskoski, vou te dar um bolo para tu parar de chorar. Senta ali no banquinho, mas não conta para ninguém quem te deu.
Até hoje lembro daquele pedaço de bolo. Não pelo chocolate, mas pelo gesto.
Foi ali que nasceu uma amizade que atravessou anos de confidências e os namoricos da famosa Árvore do Amor, testemunha de tantos encontros e até de alguns casamentos.
Hoje sinto saudade daquele bolo. Mais ainda dos amigos que já partiram para outro plano determinado por Deus.
Da dona Luizinha ficou outra lembrança inesquecível: me buscar na esquina da escola quando eu tentava matar aula para dar uma bandinha pelo centro de Guaíba.
Também lembro do cheiro do giz, da ansiedade antes das provas e da alegria dos elogios.
Nas provas de Matemática, meu talento era outro: chorar. Tentava convencer a professora Junko Suzuki de que eu sabia a matéria, mas havia sido acometida por um oportuno “branco”. E não é que funcionava? Nunca conheci a temida recuperação terapêutica. Terapêutica para quem?
Dar risada também era especialidade minha. Assim como cantar Beatles e outras “óperas” nas aulas do professor Wolney Azevedo.
O tempo passou.
Concluí o primeiro grau, fiz o Magistério e prometi que jamais trabalharia com educação. Achava a profissão linda, mas sabia que ela exigia vocação, amor e paixão, sem prometer retorno financeiro.
Só que a vida raramente pede licença.
Em maio de 1998, voltei ao Gomes Jardim. Não mais como aluna, mas como parte da engrenagem que faz este lugar pulsar.
Hoje, vinte e oito anos depois, entro pela mesma porta que um dia tentei abrir para fugir de uma aula.
O giz deu lugar ao quadro branco. Os computadores aposentaram as máquinas de escrever. A escola virou Instituto. A Biblioteca Padre Antônio Vieira se modernizou. Vieram a horta, as árvores e tantos outros projetos.
Mas uma coisa nunca mudou: o jeito de acolher.
Há algo de mágico em caminhar por corredores que um dia pareciam enormes. Entrar em salas onde fui aluna e receber quem está começando. Ver filhos de colegas e de antigos alunos ocupando os mesmos espaços.
Vi minha irmã se formar. Agora, vejo minha filha caminhar pelos mesmos corredores que um dia fizeram parte da minha infância. Antes de nós, minha mãe também escreveu sua história nesta escola. Somos uma família “Gomes Jardim”, ligada por gerações de memórias, aprendizados e afeto por este lugar. Assim como cantou Belchior: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”
Cem anos não são apenas uma data. São a prova de que a educação atravessa gerações.
E eu, que vivi quase toda a minha vida aqui, tenho o privilégio de fazer parte dessa história.
Dizem que escola é lugar de ensinar.Eu aprendi que também é lugar de pertencer.
Poucas pessoas têm a sorte de chamar de lar o lugar onde aprenderam a sonhar.
Parabéns, IEE Gomes Jardim!
De quem continua aprendendo sempre contigo,-Cecília Blaskoski-Ex-aluna, jornalista e professora
O texto acima expressa a visão do(a) colunista, não necessariamente a do Jornal Nova Folha Regional
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