Para muitas crianças nascidas nos anos 60 e nas décadas seguintes, as escolas conhecidas como “brizoletas” marcaram não apenas a infância, mas a própria vida. Na Linha Gomercindo, interior de Antônio Prado, uma delas ainda resiste ao tempo.
Tive a oportunidade de entrar naquele espaço e, por alguns instantes, voltar aos anos 70. Foram quatro anos ali, até a quarta série, sob o olhar atento da primeira professora, Gema Toss, e depois de Lorena Turani. A memória, às vezes, é um lugar onde o tempo não passa — apenas espera que a gente volte.
No último domingo, ao retornar para visitar a família, o destino preparou dessas coincidências que parecem roteiro de filme. Ao passar pela estrada, um amigo se surpreendeu ao ver a antiga escola ainda de pé e pediu que eu fizesse uma foto. Como fotógrafo, não resisti: fiz várias, além de um pequeno vídeo.
Mas o que mais me chamou atenção não foi a imagem — foi o silêncio. Um silêncio preenchido pelo canto das cigarras naquela tarde de domingo, quase como se o tempo estivesse sussurrando histórias. Lá dentro, o velho fogão a lenha ainda permanecia, testemunha de invernos rigorosos, quando servia de abrigo e calor para alunos e professores. Havia também uma pia, alguns livros esquecidos e, no chão, uma frase que parecia falar diretamente comigo: “Foi Deus que escolheu esse dia para nós. Lembrar é viver.”
Na parede, outra mensagem: “Prof. Vânia, parabéns”. Logo abaixo, um crucifixo — sinal da fé simples e profunda dos moradores da região.
Seguimos viagem, sem rumo definido. Meu amigo, movido por uma curiosidade que só aumenta quando a memória é despertada, decidiu fazer mais uma parada, desta vez na Linha Silva. Em frente a uma casa antiga, uma família tomava chimarrão. A conversa surgiu naturalmente, como acontece no interior, e logo estávamos falando sobre a história do lugar, que já serviu de cenário para produções da televisão.
E então, mais uma coincidência: entre aquelas pessoas estava a última professora da escola que havíamos visitado minutos antes. Vânia Slaviero Ciotta — o mesmo nome escrito na parede. Ela contou que trabalhou ali por cerca de 20 anos. Nos primeiros tempos, ia a cavalo; depois, conseguiu comprar um Fusca, que se tornou seu companheiro de estrada rumo à sala de aula.
A tarde seguiu carregada de emoção e lembranças. Fiquei pensando nas histórias vividas entre aquelas paredes e na importância de preservar aquele pequeno prédio, não apenas como construção, mas como símbolo de um tempo em que educar era também um ato de coragem.
As “brizoletas”, construídas nos anos 60, durante o governo de Leonel Brizola, foram mais do que escolas simples de madeira espalhadas pelo interior do Rio Grande do Sul. Representaram um esforço real de levar educação a quem estava distante, abrindo portas e formando gerações. Fica o desejo de que esse legado seja preservado — porque, às vezes, é nas pequenas construções que moram as maiores histórias.
E fica também o agradecimento ao amigo Gentil Schiavenin, morador de Flores da Cunha, companheiro de muitos sonhos e dos tempos de seminário dos capuchinhos em Pelotas, por ter proporcionado esse reencontro com o passado, em um domingo qualquer que acabou se tornando inesquecível.
*Assista o vídeo @novafolharegional
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