Passa um filme na minha cabeça quando olho para trás e relembro estes quase 40 anos em Guaíba. Em vez de ser apenas um espectador, procurei contribuir para que a cidade se tornasse um lugar cada vez melhor.
Como professor de Filosofia, gosto de pensar que desempenho um pouco o papel da coruja, que observa; do quero-quero, que alerta e grita diante das coisas erradas; e também do galo da madrugada, que anuncia o amanhecer, aponta caminhos e renova a esperança.
Ao chegar a Guaíba, imaginava que minha passagem seria breve. Mesmo assim, uma das primeiras coisas que fiz foi procurar conhecer a história da cidade. Na Biblioteca Darcy Azambuja, encontrei Guaíba – Terra e Povo, de Fernando Woern, obra que despertou ainda mais meu interesse pela história, pelas belezas naturais e pela cultura local.
Comecei a fotografar Guaíba, estudar seu passado e divulgar suas riquezas por meio de reportagens no jornal Nova Folha, especialmente nos espaços Você Conhece? e, mais tarde, no Almanaque Folha.
Também ajudei a criar o primeiro clube de fotografia da cidade e o Festival de Cinema Estudantil, que se tornou referência nacional na área, com mais de dois mil filmes inscritos, representando mais de 100 países.
No Instituto Estadual de Educação Gomes Jardim, contribuí para a realização de diversos projetos culturais e educativos, como a Semana do Livro, a Semana Cultural, o Recanto José Lutzenberger e a Praça dos Livros.
Produzi séries de cartões-postais, participei de exposições e tive uma fotografia de Guaíba estampada em um cartão telefônico na virada do milênio. Ao lado de Rafael Guimarães e de integrantes do Livretos, ajudei a organizar o livro Guaíba, Cidade do Sol Nascente. Também colaborei em publicações dedicadas à memória do escritor Valdir do Carmo, no livro Seival em Fotos, no prefácio da antologia da Academia Guaibense de Letras e em outras iniciativas de preservação da história local.
Como fotógrafo, conquistei prêmios em concursos, entre eles o Fotografe Guaíba e um realizado em Antônio Prado, minha terra natal. Cada registro e cada reconhecimento reforçaram minha convicção de que a fotografia é também uma forma de contar histórias, preservar a memória e revelar novos olhares sobre os lugares e as pessoas.
Com a aproximação do centenário da emancipação política e administrativa, voltei a procurar a Prefeitura, especialmente a Secretaria Municipal de Educação, para propor ações de valorização da memória e da identidade guaibense. Entre elas estão o concurso fotográfico Novos Olhares da Cidade e o projeto Figurinhas dos 100 Anos, lançado no mês do aniversário do município.
Essa trajetória me proporcionou reconhecimentos importantes, como o título de Cidadão Guaibense e a medalha Honra ao Mérito Berço da Revolução Farroupilha. Recebo essas homenagens com gratidão, consciente de que nenhuma caminhada se faz sozinho e de que o trabalho coletivo é capaz de transformar ideias em realizações.
Ainda tenho muitos sonhos para a cidade que me acolheu e que também recebeu tantas pessoas vindas de outros lugares. Na época da emancipação, Guaíba tinha menos de 10 mil habitantes; hoje, aproxima-se dos 100 mil. Cresceu e se transformou, mas precisa continuar valorizando sua história, suas riquezas naturais, a educação e a cultura.
Sonho com uma cidade que avance sem perder sua identidade, que ofereça oportunidades e seja um espaço de convivência, respeito e paz. Para isso, é necessário cobrar dos governantes, fiscalizar as ações públicas e compreender que a construção de uma cidade melhor também depende de cada um de nós.
Guaíba não é apenas o lugar onde vivemos. É a história que preservamos, a comunidade que construímos e o futuro que escolhemos compartilhar.
Ao celebrar seus 100 anos, olho para o passado com gratidão, para o presente com responsabilidade e para o futuro com esperança. Quero continuar exercendo meu papel de observador, crítico e sonhador: com os olhos atentos da coruja, a voz firme do quero-quero e a disposição do galo que anuncia um novo dia.
Que os próximos 100 anos sejam de mais cultura, oportunidades, solidariedade e qualidade de vida. E que, ao chegar ao bicentenário, Guaíba possa celebrar não apenas o quanto cresceu, mas, sobretudo, o quanto avançou como cidade humana, acolhedora e comprometida com o bem comum.
Parabéns, Guaíba, pelos teus 100 anos! Que nunca nos faltem coragem para mudar o que precisa ser mudado, sabedoria para preservar o que nos identifica e esperança para realizar os sonhos que ainda estão por vir. Afinal, a história dos próximos 100 anos começa com as atitudes que tomamos hoje.
Encerro com uma frase que traduz aquilo em que acredito: “Sonho que se sonha só é apenas um sonho; sonho que se sonha junto pode se tornar realidade.” É assim que vejo o futuro de Guaíba: uma cidade que não pertence apenas ao passado, nem é responsabilidade exclusiva de seus governantes, mas uma construção coletiva, feita por pessoas que acreditam, participam e agem.
Que possamos continuar sonhando juntos, porque os 100 anos que celebramos são feitos de muitas histórias, e os próximos 100 serão escritos pelas mãos de todos nós.
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