O cantor e compositor Alemãozinho da Cordeona guarda mais de cinco mil cartas de fãs. A filha, Lívia Boneberg, que também é cantora e hoje acompanha o pai nos shows, iniciou o curso de Jornalismo e, em um trabalho da universidade sobre músicos da época do rádio, ao resgatar a história do pai, encontrou uma caixa antiga com cartas. Juntos, decidiram ler e compartilhar algumas delas e se impressionaram com a quantidade e com o conteúdo das mensagens, que revelam histórias de uma época em que a carta era uma das principais formas de comunicação entre artistas e ouvintes das rádios.
As correspondências trazem relatos de histórias vividas durante os bailes, pedidos de músicas, declarações e homenagens feitas ao vivo, demonstrando a forte ligação do cantor com o público. Algumas cartas têm mais de duas páginas escritas à mão, como a de um casal que contou ter se conhecido em um show do artista, iniciado o namoro e, posteriormente, se casado. Há ainda relatos de amigos e parentes que pediam músicas ao cantor nas apresentações nas rádios, seja para aniversariantes, para homenagear alguém especial ou para solicitar canções específicas. Alemãozinho da Cordeona iniciou sua carreira artística em 1969, no interior de Barra do Ribeiro, município que, à época, pertencia a Guaíba. Aos 74 anos, o cantor e acordeonista soma uma trajetória de destaque na música regional, com quatro discos de vinil, um CD gravado e mais de 60 músicas lançadas, entre composições próprias e parcerias.
No início da carreira, Alemãozinho atuava como gaiteiro acompanhando outros artistas. O reconhecimento veio a partir das participações nos programas do saudoso Darci Fagundes, na Rádio Farroupilha, espaço que possibilitou a formação de seu próprio grupo e a venda de shows.
Foi justamente no rádio que o artista viveu um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória. O grande volume de correspondências despertou o interesse da gravadora RCA, pela qual gravou seus primeiros discos. Entre os maiores sucessos estão Sou Mais ou Menos Assim, Furo da Cordeona e Só Me Caso com Alemão.
Em 1985, por problemas de saúde, Alemãozinho interrompeu a carreira profissional, mas seguiu ligado à música, realizando bailes no Salão Gigante do Passo Grande, em Barra do Ribeiro, espaço que, durante décadas, recebeu grandes bandas e nomes da música gaúcha.
O retorno aos palcos aconteceu em 2016, com o lançamento do CD “De Volta”, ao lado da filha Lívia Boneberg, formando uma dupla de pai e filha.
O artista destaca que sempre guardou cada carta com muito carinho, reconhecendo o esforço e o afeto dos fãs. Segundo ele, muitas mensagens tinham mais de três páginas escritas à mão.
“As pessoas dedicavam tempo para escrever, depois ainda iam até a agência dos Correios, que muitas vezes ficava longe de casa, principalmente para quem morava no interior. E, depois de tudo isso, ainda esperavam semanas para ouvir o recado no rádio”, relembrou.
Alemãozinho contou que fazia questão de ler todas as cartas. “Eu lia todas. Às vezes demorava um pouco, mas lia. Tenho muita saudade daquela época”, afirmou. Apesar da nostalgia, o cantor reconhece os avanços da tecnologia. “Hoje a comunicação evoluiu muito, a internet facilitou demais a divulgação dos artistas. A gente grava um vídeo, posta, e ele chega rápido a todos os seguidores e amigos. Antigamente, isso não existia”, completou.
Contribuição no texto e fotos de Livia Boneberg.
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