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Sexta-feira, 01 de Maio de 2026

Cultura

A passagem de Belchior por Guaíba

Cantor morreu há nove anos e em 2013 viveu cerca de cinco meses em Guaíba

Valmir Michelon
Por Valmir Michelon
A passagem de Belchior por Guaíba
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Na localidade da Serrinha, entre os municípios de Guaíba e Barra do Ribeiro, um dos pontos mais altos da região, o cantor e filósofo Belchior viveu cinco meses no sítio do advogado Jorge Cabral. A amizade entre os dois foi registrada no livro “Belchior, a história que a biografia não vai contar”. 
O livro narra a passagem do cantor cearense em seu sítio no ano de 2013. O cantor confidenciou ao advogado que a imagem da Serrinha era uma das mais belas que ele tinha visto e que gostaria de poder comprar um pedaço de terra lá e serem vizinhos. O músico morreu três anos depois, ou seja, no dia 30 de abril ,  em Santa Cruz do Sul/RS, aos 70 anos de idade. 

O encontro
O advogado Jorge Cabral hospedou o cantor Belchior e a esposa depois de se conheceram no verão de 2013, no balneário de Atlântida Sul.  O advogado ofereceu o sítio da família para passar alguns dias em Guaíba, mas acabou ficando cinco meses, mas poderia ter permanecido mais tempo, se dependesse dele. Chegando ao sítio, no final de março daquele ano, Belchior encontrou a paz que procurava, um lugar calmo e no meio da natureza. Ele não mostrava interesse em sair da Serrinha, “achava o local ideal para se viver, na natureza e no isolamento”, disse o advogado. 
Belchior e sua esposa passavam a semana sozinhos no sítio, pois o advogado morava e trabalhava em Porto Alegre e ia visitá-los somente nos finais de semana.  Os vizinhos mais próximos eram agricultores que cultivavam bata doce e residiam a dois km. Sabiam do ilustre morador e cuidavam dele durante a semana. “Os reencontros se davam nas sextas-feiras, quando retornávamos ao sítio. Éramos recebidos de forma efusiva e gentil por Belchior, como se fôssemos nós os visitantes em nossa própria casa, o que nos deixava felizes por ele se sentir feliz no ambiente”, escreve Cabral.

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                  A despedida
                        Toda linda história tem um fim. Notícias de assaltos em sítios na região e temendo a segurança do cantor, o advogado convenceu o casal a deixar a Serrinha. Ambos foram levados para a sede da União Brasileira de Compositores em Porto Alegre.  A despedida não foi fácil para o advogado Cabral e sua família. “Ajudei-o a colocar as malas no carro, ele me chamou e disse: “Geralmente é o fã que pede para tirar uma fotografia com o artista. Hoje vai ser diferente, tira uma fotografia comigo”, lembra ele no seu livro. “Era a Serrinha, reconhecida pelo privilégio de tê-lo hospedado e que, naquele momento, se despedia em movimento, ajudada pelo vento, balançando os galhos que acenavam, na sua partida”, comentou o escritor no caminho de volta com o cantor.
No livro, chama a atenção o fato de o escritor não citar o nome da esposa do cantor, considerada responsável por seu isolamento.  Além de Guaíba e Porto Alegre, o casal perambulou por Santa Vitória do Palmar, São Lourenço do Sul, Xangri-Lá, e na praia de Atlântida Sul, Cachoeirinha, Jaguarão, Quaraí, Sobradinho e, por fim, Santa Cruz do Sul.

                                        Belchior não foi só cantor, foi poeta, filósofo, artista plástico e um grande homem”, disse Cabral.

As histórias
-O advogado comentou que ele deveria escrever suas histórias e Belchior respondeu: “As minhas histórias são tuas histórias. Estou na tua casa. Não foste tu que entrou na minha vida, eu entrei na tua vida. As histórias são tuas e o contexto é teu”, disse o cantor. “Isto me estimulou a escrever o livro, disse o advogado.

-Belchior gostava de caminhar pela mata e estradas da Serrinha. Um dia pegou um pedaço de madeira e o transformou num cajado, lembrando o filósofo Diógenes, que vivia de maneira simples na antiga Grécia. O pedaço de madeira foi guardado como uma relíquia e lixado pelo advogado.  Hoje é guardado no quarto, no sítio onde o cantor dormiu na Serrinha.

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A última imagem no sítio: Cabral e Belchior: “Geralmente é o fã que pede para tirar uma fotografia com o artista. Hoje vai ser diferente. Tira uma fotografia comigo”.

Saiba mais
Antônio Carlos Belchior, mais conhecido como Belchior, nasceu em 26 de outubro de 1946, Sobral, no Ceará e morreu em 30 de abril de 2017, Santa Cruz do Sul, RS. O corpo do cantor foi sepultado em Fortaleza, no cemitério Parque da Paz. Ele morreu após passar dez anos sem localização certa. Sua voz é inconfundível, o compositor teve diversas poesias interpretadas por Elis Regina, como a música “Como nossos pais”.

COLUNA PUBLICADA NO JORNAL  NOVA FOLHA POR JORGE CABRAL

                         BELCHIOR   

  No ano de 2013  hospedei  o cantor,compositor e filósofo Belchior  na minha casa localizada na Serrinha interior da cidade de Guaíba no Rio grande do Sul.  Deste encontro de alguns meses, resultou o  livro  com  o  título  “ Belchior A História Que a Biografia não  VAI  CONTAR, cuja  história deste momento da vida do  cantor  somente eu e meus familiares possuíam, razão  do  título do  livro.   Os fatos  contados por quem  viveu conjuntamente com o artista, cujas histórias dele passaram  a fazer parte das nossas  como  ele mesmo  disse,  que a história de outro  contada em  nossa casa, passa a fazer parte da nossa história. Tal reflexão mereceu um capítulo  com  o  título “ As minhas Histórias são  as tuas Histórias”,  cujo trecho  reproduzo  a seguir: “Nossa vida é permeada por histórias que permanecem pelos feitos e efeitos das realizações e das não realizações, de alguns fatos que chegaram ou não a se realizar, e que ficam mantidos em nossa memória como reais. Segundo especialistas da neurociência que estudam o cérebro humano, não conseguimos distinguir algumas situações quando estimulamos nossa memória pela impressão causada, isto é, o cérebro não sabe dizer se o fato é real ou uma lembrança, ou ainda uma imaginação, ou quiçá uma existência anterior. O cérebro simplesmente processa uma realidade como presente fosse, embora sob exame tomográfico as áreas acionadas possam indicar o que é uma ou outra. Essa é a razão pela qual quando exercitamos a memória de um alimento saboroso, sentimos seu gosto e seu cheiro, uma espécie de excitação degustativa que nos faz salivar. Assim, a lembrança ou a imaginação cria uma espécie de vida paralela da nossa própria vida real em que o passado de certa forma se torna presente pela lembrança, ou melhor pela revivência de algo real ou enganamos o cérebro como se real fosse. Lembranças de sonhos do passado podem confundir nossa memória com a realidade, de modo que não sabemos se ocorreram ou não. Às vezes, lembramos histórias não vividas, que em determinado momento da vida podiam ter acontecido, mas que não aconteceram, quando a opção escolhida foi diversa e nos conduziu por outro caminho, transformando nossa realidade. Diante disso, passamos o resto da vida imaginando se tivesse ocorrido tal fato, o qual optamos não realizar, uma espécie de vertente da vida paralela de uma lembrança de algo não realizado, mas que ficou no imaginário, como se realizado fosse. Inexplicavelmente, passamos a ter lembrança de algo que não fizemos, como se tivéssemos feito....” Dia 30 de abril  do  ano de 2017  Belchior partiu para  outro  plano ou dimensão,  permanecendo  em nós   através da sua obra, e das suas histórias  confundindo   com  as nossas.  

Jorge Claudio  Cabral

  Advogado  e escritor

 

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Valmir Michelon

Publicado por:

Valmir Michelon

Professor de Filosofia, Jornalista e Fotógrafo.

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