Walter Galvani

MOLHANDO AS PLANTAS

Foi remexendo em meus arquivos que deparei com um texto rejuvenescedor que me remeteu para o ano de 2002 e que, hoje nem sei se cheguei a mandar para o público. O certo é que reencontrando-o hoje me orgulho de haver pensado com dignidade sobre uma tarefa simples que minha companheira se autoimpôs e enfrenta praticamente todos os dias, quando não chove: molhando as plantas do jardim.

Na época, há dezenove anos, classifiquei-a como “uma experiência extraordinária”.

“Molhei as plantas do jardim!” escrevi. “Tomei uma mangueira nas mãos e dirigi-me à elas e fui logo conversando e tentando adivinhar-lhes os nomes e o quanto de água as satisfaria. Aos poucos peguei o jeito de manobrar com o mecanismo do esguicho e com isso, ora espargia com sofreguidão a água sobre todos os arbustos, ora fazia com que o jato subisse até os galhos mais altos das árvores. Foi assim que conversei com a bergamoteira, com a laranjeira, com o abacateiro, enquanto espiava para ver se ficava algum trecho de grama, ou pedaço de jardim, sem o abençoado batismo que eu distribuía.

Com as plantas fui me acostumando, alcançando desenvoltura, caminhando entre elas, molhando-me nos galhos e encharcando os pés, disposto a levar até o fim minha tarefa voluntária e que me dava uma inesperada alegria.”

Porque não repeti aquela humilde colaboração? Por haver entendido que era uma tarefa feminina?

Que tristeza, como são tantos os orgulhos bestas, essas miudezas inúteis que atravancam o caminho dos bons relacionamentos.

Parece que hoje vai chover, e enquanto capricho aqui na redação deste modesto texto que vai como minha colaboração aos jornais que me distinguem com seu convite, reflito que a vida nos dá de graça lições diárias e elas são uma bênção e precisamos, apenas, é estar atentos. Coisas tão simples estendidas em nosso caminho.

Basta saber ler.

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“E pela primeira vez em minha vida, percebi com alegria e emoção, até perder a conta, os jovens pomos das bergamotas e formando, prometendo para breve o crescimento e o amadurecimento do fruto.

Antes de me retirar –escrevi então – “passei pelo limoeiro e dei com um limãozinho, um só, impávido e tranquilo, balançando-se em seu galho”.

Em busca de utilidades como essa, continuarei remexendo em meus arquivos.



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