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Uma manhã na ilha

Jornalista passa horas sozinho na Ilha buscando paz, silêncio e espiritualidade



Texto e fotos Valmir Michelon


Sempre tive desde criança o sonho de passar um dia sozinho ou uma noite numa ilha qualquer. Parece coisa de cinema, mas parte desse sonho eu realizei no último final de semana. Há quase 30 anos costumo, dentro do possível, acompanhar atividades, promover eventos, pesquisar e levar grupos de pessoas que têm desejo de conhecer a Ilha das Pedras Brancas, localizada entre Guaíba e Porto Alegre. Infelizmente, ela é ainda pouco acessível à grande maioria da população. Neste ano, por exemplo, tentei diversas formas para encontrar um meio de ir na Ilha, ver a situação dela e visitar a gruta de Nossa Senhora dos Navegantes.
O pescador, que costumava fazer passeios e parcerias para visitas, limpezas e ações de pesquisa e reportagens, teve seu barco praticamente destruído com o último temporal. Tentei com outros pescadores, mas não tive sucesso. Lembrei dos ‘guris’ da canoagem que prontamente, através do Nilvion Schimit, conseguiu, no intervalo dos treinos de canoagem, levar-me à ilha.
Assim, manhã de sábado, 3 de fevereiro, fiz algumas fotos do amanhecer na cidade onde no fundo a enxergava em forma de silhueta e logo em seguida embarquei rumo à Ilha. A água sempre me traz medo, pois quando criança, se não fosse meu irmão, teria me afogado num tanque de lavar roupa. Mas o desafio naquela manhã era vencer a correnteza do Guaíba e finalmente, depois de uns 20 min, chegamos ao destino. O acesso estava melhor da última vez, cujo trapiche estava caindo. Agora a prefeitura colocou dois flutuantes de ferro, com a mesma estrutura do píer. Fiquei observando o barco voltar à linda cidade no amanhecer daquele sábado.
Estávamos na Ilha e eu. Parecia vazia desta vez, sempre fui com grupos ou mais pessoas. Em uma das idas, encontrei filhotes de gatos, o Pedras Brancas e o Graffiti que adotei e hoje vivem no bairro Ermo. Desta vez não vi gatos, menos ainda seres humanos, apenas ‘fantasmas’ da antiga prisão.
Lembrei das primeiras vezes que fui lá nos anos 90, uma delas com o empresário Luiz Carlos Rodrigues de Ávila e seu amigo, que lembro pelo apelido de ‘ganço’, além de alguns outros passeios promovidos no entorno da Ilha. De lá para cá, foram dezenas de idas e milhares de fotos feitas. Lembrei de diversos passeios feitos junto com as entidades como, por exemplo, a AMA e o Pro-cultura na luta pela cedência da Ilha para Guaíba e o seu tombamento que teve o apoio do ex-vereador Xandão. Mas desta vez a ida à ilha teve outro objetivo diferente, pois nunca tinha ficado sozinho naquela ilha. Logo ao chegar, encontrei as cinzas de um fogo, sacos cheios de lixo e ainda muito material a ser recolhido, pois o temporal de janeiro também deixou estragos no local.
Subi a escadaria em direção às celas da antiga prisão. Pouco mudou desde a última vez que estive lá. Novas pichações nas paredes e alguns trabalhos com grafite. O destino principal daquele dia era a gruta de Nossa Senhora dos Navegantes. O mato tinha tomado conta e percebi que há alguns meses o local não era visitado. Limpei a gruta e acendi oito velas - mas, porque oito, alguém poderia questionar - o número oito merece outra crônica. Rezei para que ela, com olhar voltado à Guaíba, siga protegendo os navegadores, visitantes e a cidade. Até hoje não foi possível descobrir quem teve a ideia da gruta. Foram os seguranças, algum funcionário ou alguns presos? Soube que até padres foram presos durante a ditadura militar e a ideia seria de algum devoto?
Cumprido o principal objetivo de visitar a gruta, caminhei mais um pouco entre as pedras e o verde. Encontrei junto a um antigo túmulo no meio das pedras, algumas escavações. Novamente surgem novos questionamentos: o que buscavam no local e quem fez aquele buraco? Quem seria a pessoa que ali um dia foi enterrada, cuja laje que cobria tinha sido retirada há anos? Não há dúvidas de que há muitas dúvidas sobre os mistérios e histórias dessa ilha.
Caminhando pelas trilhas noto o grande silêncio na ilha. Estranhei que nas primeiras horas da manhã encontrei poucas aves, mas aos poucos, com o sol subindo, elas foram aparecendo, vindo talvez dos morros no entorno de Porto Alegre e Guaíba. E assim percorri as trilhas que já conhecia, e fiz diversas fotos buscando sempre novos olhares. Passei pelas antigas celas da prisão que testemunharam de importantes acontecimentos. Subi umas das guaritas com uma corda que permite ainda o acesso e de lá fiquei algumas horas até o retorno do barco, que chegaria no final da manhã de sábado. Lembrei de histórias da Ilha, desde a primeira descrição do local em 1851 feita pelo engenheiro Patrício A.S Everard, a pedido do Governo da época, antes de construir um depósito de pólvora. Mais tarde abrigou laboratório da peste suína, presídio e, por fim, espaço voltado ao turismo e à cultura.
No alto da guarita vi diversos barcos passarem, usando o canal que é caminho para as maiores embarcações. De longe vejo barcos menores. Logo imaginei que em breve teria companhia. De fato, logo um a um foram parando na ilha. Desci do topo das pedras e ao longe vejo eles arrumando seu acampamento. Nos cumprimentamos e descobri que fizeram 23 km de canoagem, vindo da cidade de Canoas. Recebi o convite para almoçar, mas o barco de volta já me esperava e assim fui me despedindo de mais um passeio na Ilha das Pedras Brancas. Saí com a esperança de que em breve o local receba mais pessoas, através do projeto da nova Orla do Guaíba que a prefeitura vem desenvolvendo, que garantirá que a história seja preservada, como as celas, o verde e a gruta de Nossa Senhora de Navegantes.


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