Recortes Cotidianos

A elegância que reside

na discrição

Natália Carvalho*

naticarvalhoo@gmail.com

Esses dias vi um story (aquelas postagens rápidas no Instagram, que somem em 24 horas), de uma conhecida que postou toda a agenda do dia dela: todos os compromissos desde a hora em que acordaria, até a hora que iria dormir, seguida do seguinte comentário: “depois vão falar que é sorte”. E fiquei com aquilo na cabeça. Querida, quem vai falar? E se alguém falar, essa pessoa merecia que tu perdesses tempo fazendo uma postagem dedicada à ela?
Observo também pessoas que terminam relacionamentos e, a exemplo de famosos, sentem a necessidade de expor a vida na internet. Falam mal do ex (que era maravilhoso há poucos dias), prestam contas de onde vão, de onde não vão, com quem vão e porque vão. Gente: ninguém tem nada a ver com isso. A vida é de vocês, o relacionamento era dos dois, ninguém mais precisa saber. Não tem nada de errado no silêncio, em querer se preservar.
Também há o caso de pessoas que abrem um negócio e saem a falar mal de fornecedores e clientes nas redes sociais. Falam do quanto investiram e que o negócio precisa dar retorno. Que estão “no corre” e as pessoas precisam ajudar, praticamente intimando quem lê a ser seu cliente, chegam a acusar o público no caso de não serem tão bem sucedidos quanto gostariam. E já atraem para si (e seu negócio) uma antipatia de quem podia ser cliente em potencial. Lamento informar, mas não é assim que o negócio vai prosperar. Pra trabalhar com público (e pra tudo na vida, é preciso ter uma certa etiqueta)!
Damos tanta abertura pra pessoas não tão importantes saberem da nossa vida e depois carregamos o peso de lidar com opiniões que não queremos receber, com o peso de sermos analisados e julgados o tempo todo. Porque a partir do momento que eu exponho uma situação na rede, eu perco o controle sobre a narrativa que se cria em cima dela. Depois vou lá e reclamo que estão falando da minha vida, sendo que eu mesma me coloquei na vitrine.
E refleti bastante sobre a nossa preocupação com o que os outros pensam das nossas vidas, como se tivéssemos a real necessidade de nos explicar o tempo todo. Qual a relevância dessas pessoas para merecerem receber publicamente nossa agenda? A quem beneficia prestarmos contas da nossa vida pessoal? Isso nos faz bem mesmo?
As redes sociais nos dão a impressão de que precisamos prestar contas o tempo inteiro. Com urgência. Pra pessoas sem relevância. Que podem não querer de verdade o nosso bem. Em tempos em que tudo é publicizado, ser discreto é sinônimo de elegância. Ninguém, a não ser as pessoas próximas e que amamos, precisa saber das nossas vidas. Hoje eu só quero a beleza de uma vida em paz e tranquila. Discrição e elegância nunca saem de moda, nos preservam de olhares intrusos e nos fazem aproveitar a vida com mais autenticidade.

* Publicitária.

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