Recortes cotidianos

Eu sou a filha do Chico

Natália Carvalho*

naticarvalhoo@gmail.com

Meu pai era chamado de Chico por todo mundo, de Chico Cavalo pelo pessoal do futebol, de Tio Xyko pela gurizada do ONDA. Se estivesse vivo, ouviria Marina se referindo a ele como o Vovô Chico, que foi como ensinei. Francisco era nome do meu avô paterno também. Quando eu era pequena achava estranho esse nome, hoje eu acho lindo. Forte. Imponente.
E meu pai era um cara que se fazia de forte e imponente até, mas não aguentava manter a pose por muito tempo, porque o coração dele sempre falava mais alto. Eu achava que ele era um Super Herói quando pegava eu e minha irmã no colo ao mesmo tempo e nos levantava bem alto. Uma das alegrias que eu tinha era sair com ele, porque ia cumprimentando e conversando com todo mundo e eu me sentia importante. Depois, eu amava dizer pra ele que estava precisando de uma caneta de gel dourada ou de uma que escrevia com várias cores ao mesmo tempo e tinha cheirinho, na certeza de que ele voltaria no fim da tarde com a tal da caneta que eu tinha falado. Porque esse era o jeito dele agradar.
Meu pai fazia questão de nos levar e buscar nas festas do Itapuí e da Riocell pra que ficássemos em segurança. Gostava da casa cheia e aqui eu sou igual. Amava quando vinha a gurizada pra casa e que pedissem pra ele cozinhar. Era parceiro de viajar pra qualquer lugar, adorava inventar um passeio. E aqui eu sou igual também. Era meu parceiro de comer traíra frita e às vezes combinávamos escondidos de ele comprar e fazer porque a mãe odiava cheiro de peixe. E a gente sempre ria quando ele chegava com a sacola da peixaria e ela reclamava. Ele era minha companhia matinal no caminho da escola, sempre ouvindo as notícias do rádio, na ida e na volta, hábito que eu também mantenho.
Os professores da seleção de mestrado e da banca de qualificação se emocionaram quando eu respondi qual a minha motivação pra estudar futebol num PPG de Comunicação. E eu conto que a motivação é o meu pai porque eu cresci vendo ele assistir a praticamente qualquer jogo que a televisão transmitisse, porque via ele apitando jogos enquanto eu crescia, porque ajudava a ver escala e preencher súmula, porque ele tentou quase que a vida inteira “me comprar” pra que eu virasse gremista e que não ter conseguido devia ser uma das maiores frustrações dele. Brincadeira, óbvio.
Ele não me viu formada porque faleceu um mês antes da minha formatura, mas viu as fotos da prova de toga e me disse (acho que a única vez!) que eu “estava linda, parecendo uma princesa”. E isso me marcou pra sempre. Ele foi homenageado por professores e colegas na minha formatura, a qual eu era presidente da comissão. Ver a filha concluir o ensino superior era um sonho dele, que fiquei sabendo que contou pra meio mundo que eu ia me formar. Então, ele está sempre presente na minha vida acadêmica. Enquanto eu estudo futebol, é como se ele estivesse comigo.
Logo que ele faleceu, eu tinha um grande medo: medo de esquecer. Esquecer do cheiro, da voz, dos momentos felizes que vivemos. E acho que isso me motivava a escrever sempre sobre ele, pra sempre lembrar. Mas eu entendi que a gente nunca esquece, pois não tem um dia que eu não lembre. Só que depois de um tempo, lembrar não dói. Hoje ele é a minha saudade mais bonita. Aquela que eu conto com orgulho pra Marina, que imagino o quanto ele estaria feliz, todo bobo e fazendo todas as vontades dessa neta. E o sentimento que eu tento passar pra ela é esse: nosso pai nunca morre. Ele está sempre vivo no nosso coração, nas nossas lembranças, em quem a gente é. Só que agora, eles sentem orgulho da gente lá do céu.
Esse texto é pra homenagear todos os pais pelas memórias que criam com os filhos. Cada um do seu jeito, com suas limitações, no seu tempo, com sua maneira de amar. Meu pai não era um homem perfeito, mas nas minhas lembranças, ele era o pai perfeito pra mim e vai ser pra sempre. O quão feliz estaria seu Chico ao ver o nome dele lá, no capítulo da dissertação, onde eu falo sobre minhas motivações pela escolha do tema? É provável que estivesse mais bobo do que eu. E assim, eu faço pra eternizar, porque não tem como esquecer quem vive pra sempre no coração. Feliz Dia dos Pais!

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