Recortes cotidianos

E se eu tivesse escutado o coração?

Natália Carvalho*

naticarvalhoo@gmail.com

Rafael teve uma infância difícil. Quando jovem, sonhava em construir uma família. Essa era sua meta principal. Imaginava-se cozinhando, as crianças correndo pela casa, a esposa pintando quadros em seu ateliê. A idade foi avançando, a esposa que pintava quadros na sua imaginação foi ficando cada vez mais distante na realidade. Casou-se com uma namorada que era legal, mas que nunca fez seu coração errar as batidas. Ele se frustrava no dia-a-dia, pois a esposa não era tão parceira assim, parecia não ter os mesmos sonhos que ele.

Em outro canto da cidade morava Bia, que havia sido uma criança muito expressiva. Adorava fazer desenhos e pinturas, tanto nos papéis quanto nas paredes de casa. Um dia alguém disse a ela que aqueles desenhos não eram tão legais assim porque deixavam a casa suja. Ela foi crescendo e deixando as tintas e os lápis de lado. Nunca casou, mas passou em um concurso público, em busca de estabilidade financeira. Ela via telas de paisagens coloridas e seus olhos brilhavam. Porém, seu sonho de pintora ficou lá, dormindo em algum cantinho secreto.

Helena sonhava em ser confeiteira desde que se conhecia por gente. Na sua memória habitavam as lembranças de quando cozinhava com a avó quando era pequenina. O cheirinho de chocolate que tomava conta da cozinha enquanto as duas se divertiam. A fofura do pão quentinho recém saído do forno. Ela cresceu, vieram os filhos e precisou se dedicar a eles. Fazia aquilo com amor, cozinhava para as crianças, mas nunca teve a confeitaria.

Marina hoje diz que vai ser confeiteira, astronauta e estilista. O cuidado que eu tenho é de nunca ser a pessoa que vai dizer pra ela que os sonhos são impossíveis, que ela não é boa no que faz, que existem coisas mais lucrativas ou importantes, ou que a arte dela não é linda. Muitas vezes falamos coisas da boca pra fora, mas que podem marcar as pessoas pra sempre, fazendo até que desistam dos seus próprios sonhos, sem que a gente se dê conta.

Quem sabe como teria sido se Rafael tivesse escutado seu coração e conhecido Bia? Como teria sido se Bia não tivesse desistido de pintar, porque acreditou em algum momento que aquilo não era pra ela? Será que Bia teria sido a esposa dos sonhos do Rafael, pintando uma tela no meio da sala enquanto ele cozinhava? E a confeitaria de Helena, como teria sido se alguém tivesse dito uma palavra de encorajamento? Seria tarde pra ela começar a investir nesse negócio?

Eu quero deixar aqui as seguintes perguntas: no que vocês são bons? Onde encontram o prazer quando não dependem da aprovação de ninguém? O que faz vocês se emocionarem? O que faz o olho brilhar e o coração errar as batidas? O que vocês teriam feito diferente se tivessem escutado o coração? Eu posso ser uma sonhadora, mas acredito que quando fazemos o que amamos, sem pensar em agradar alguém ou nos encaixarmos em caixas pré-estabelecidas, a vida flui lindamente. Onde eu quero chegar é: que sonhos estão adormecidos aí dentro?


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