Recortes Cotidianos

Qual o desejo da criança que mora aí dentro?

Natália Carvalho*


naticarvalhoo@gmail.com


Ter um filho ou uma filha nos desarma de uma moldura rígida que vamos adquirindo com o passar do tempo. Antes de a Marina nascer, eu gostava de ser previsível. Acordava e já tinha o dia todo programado, na maioria das vezes. Sabia que horas tinha que sair de casa pra chegar sem atraso, calculava cada coisa que eu faria porque a organização me deixava segura.
​Confesso que hoje tenho dificuldade em lidar com o fato de não conseguir organizar meu dia como eu gostava de fazer.
Porque com criança junto, a gente nunca sabe o que vem. Previsibilidade passa a fazer parte do nosso dicionário com menos frequência. E isso é algo que eu estou aprendendo a aceitar: que não adianta eu querer que tudo seja do meu jeito, porque crianças estão aí pra nos mostrar que não é. Que eu posso programar ir pelo caminho A, mas precisar ir pelo caminho B, porque vou ter um imprevisto. E tudo bem.
​Já, por outro lado, crianças nos fazem renascer.
Nos tiram do nosso óbvio, despertam um sorriso com algo bobo, fazem lembrar de coisas que a gente gostava na infância e nem sabia mais. Eu construí uma Natália trabalhadora e estudiosa e abafei a Natália divertida e palhaça que sempre fui. Marina chegou e me mostrou que aquela criança ainda existia e que eu podia ser menos rígida comigo e me permitir sentir prazer nas pequenas coisas: ao assistir um desenho animado, a rir de piadas sem graça, a me divertir em um passeio como se estivesse indo ao lugar pela primeira vez. A querer fazer piquenique, a deitar na grama ou simplesmente correr pra sentir o vento no rosto sem qualquer julgamento.
​Durante a quarentena convivi mais com ela do que estava planejado. Precisamos readequar a nossa rota. E já que era pra ser assim, eu resolvi pegar mais leve comigo (ou tentar!).
Aproveitei esse período pra tentar redescobrir coisas que eu gostava e me desafiar a aprender coisas novas sem qualquer compromisso de precisar ganhar dinheiro com um hobby. Porque é isso que a gente faz: transforma hobbies em dinheiro e o prazer já vira cobrança e pressão.
Então, fiz um mestrado em Comunicação, um curso na área de estética (pra ver como era), comprei tintas e telas pra retomar um curso de pintura (que um dia eu ainda retomo, porque os materiais estão aqui!) e, por fim, um curso de maçãs carameladas (afinal, sempre tive poucos talentos culinários, talvez por pouca prática) e eu queria me desafiar.
E não é que deu certo? Me diverti enquanto navegava por áreas que “não eram minhas”.
​Hoje eu sei melhor quem sou quando não preciso fazer as coisas ou estar nos lugares para simplesmente me encaixar. Sei do que gosto e do que não gosto, sei o que permito e o que não permito.
A criança que tive me ajuda a resgatar a criança que fui. Que gostava de descobrir, experimentar, fazer algo diferente pela primeira vez. E a criança que está aí dentro de ti, é sedenta pelo quê?
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