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O Novo Normal

Atualizado: Set 6

Por Rogério Madrid/Escritor

Não lembro bem quando começou, acho que foi há uns 20 anos atrás, quando teve um surto de corona vírus que atacou o mundo de uma forma devastadora e todas pessoas do planeta tiveram que ficar em quarentena, sem sair de casa. Eu tinha 12 anos e nós também fomos obrigados a fazer quarentena, nunca mais saí de casa. E foi aí que descobri a real felicidade. Eu era um menino que sofria bullying diário, era um menino feio, usava óculos, com jeito de nerd, ruim nos esportes e não tinha jeito nenhum com as meninas, toda vez que ia ao colégio era um sofrimento só. Então quando fomos obrigados a ficar em casa, tudo mudou e para melhor.

As aulas eram por vídeo conferência, os trabalhos eram todos por consulta as mídias eletrônicas, e neste quesito eu me destacava. Não tinha mais aulas esportivas, que eu detestava. Em compensação os jogos online proliferaram e eu era muito bom. Aquele ano acabei sendo um dos melhores alunos do colégio, todas as meninas queriam ficar no meu grupo de trabalho, pois eu fazia tudo sozinho e elas só ganhavam notas boas. Passei a ser o queridinho das meninas do colégio.

Nas férias que veio logo após o término daquele ano, o isolamento social continuava e as viagens turísticas estavam proibidas, para muitos uma tristeza sem fim, para mim foi só alegria, pois detestava praia, era muito branco, magrelo, desprovido de músculos e muito tímido, foi quando comecei a viajar pela internet. Conheci lugares maravilhosos, no mundo inteiro, lugares que meus amigos nunca imaginaram estar, e sem precisar sair de meu quarto.

No retorno às aulas, que continuaram a ser à distância, somente via computador, quando abriam os bate papos virtuais e o assunto eram sobre as férias, eu maravilhava todos falando dos lugares que havia conhecido, dos pontos turísticos descobertos e desbravados. E como era tudo por vídeo, eu não gaguejava e nem ficava vermelho ao falar. Isto foi me dando uma certa segurança, o meu quarto foi transformado em quase um verdadeiro estúdio, era para mim um bunker, eu me sentia protegido e forte.

Fomos assim até a formatura do ensino médio, nunca mais sofri chacota dos colegas, era o melhor nos jogos online e naquela época abri uma conta nas mídias sociais, e com os recursos de meu estúdio particular, comecei a postar fotos dos lugares que visitava sem sair de dentro de meu quarto, é claro que não dizia isso nas postagens. E o que foi melhor, as fotos minhas que postava, conseguia melhorar e muito com os recursos de photoshop , luzes e editor de imagens

Assim consegui várias namoradas, e virava as noites batendo papos acirrados e apimentados com elas, trocava nudez e dormíamos extasiados. Passei no vestibular e comecei a cursar física na universidade EAD, naquela época a pandemia já era coisa do passado, a vida já havia retornado como era antigamente,isto para eles que não entenderam o novo normal. Eu fazia oito anos que entendi o recado do mundo, e não mais precisei sair de casa, do meu “forte” comandava tudo que queria, inclusive a temperatura ambiente.

Meus pais no início achavam muito estranho, queria me levar em psicólogo, psiquiatra e outros doídos. Quando começaram a ver a felicidade em meus olhos, coisa que eles nunca tinham conseguido ver antes, entenderam que o isolamento só me fazia bem. O meio virtual me permitiu ser destaque no colégio, ter muitos amigos, ser o melhor nos jogos e, ainda, namorar todas as noites, sem o risco de estar correndo perigo na insegurança que tomou conta do mundo e das doenças sexualmente transmitidas.

Alguns anos depois, já com 26 anos, me tornei um Físico, especializado em Física Quântica. Em razão do meu TCC ter sido elogiado e ganhado destaque, fui convidado para trabalhar em pesquisa para uma empresa multinacional, com sede na Europa. Tive que aperfeiçoar o meu estúdio em casa, todo dia tinha reunião em vídeo conferência. As vezes eram duas reuniões diferentes ao mesmo tempo.


Naquele tempo já não era somente o meu quarto, transformei toda a casa em um grande estúdio de trabalho, e também lazer. Acabei não falando que alguns anos antes meus pais haviam se aposentado e foram morar no interior, em um sítio que era de meu avô. Desde que deu a pandemia, a minha Mãe não conseguia mais ser feliz em morar numa cidade grande, assim que puderam foram viver junto a natureza, não sei como eles conseguiam gostar daquela vida selvagem.

Numa daquelas reuniões intermináveis online, conheci Maruska, minha colega que trabalha em Bruxelas, também especializada em Física quântica. Quando as vídeos conferências terminavam, nós continuávamos a conversar. Fomos criando uma certa cumplicidade e passamos a nos falar todo dia. O clima foi crescendo, quando nos demos conta estávamos apaixonados um pelo outro. E não deu outra, no ano seguinte casamos.

Foi uma cerimônia linda, convidamos apenas alguns amigos para apadrinhar nosso amor, não podiam ser muitos, pois queríamos todos na tela do computador no momento do “sim”. O difícil foi definir o horário devido ao fuso horário, mas correu tudo bem. O único contratempo foi que ao brindar, me emocionei e derramei espumante no meu computador, quase que deu “crepe” e ele desliga. Já pensou, no momento da cerimônia, o noivo some no ar.

Eu nunca tinha pensado em ter filhos, mas a Maruska era doída por criança, e logo começou a falar que estava na hora de termos um filho, até que me convenceu. E começamos a planejar o nosso baby. Ela se encarregou de tudo, lá de Bruxelas descobriu uma empresa que fazia a coleta do sêmen em todo o mundo, com total segurança e confiabilidade. Uma semana depois, ao abrir meu notebook, numa noite de lua cheia, me deparo com Maruska toda sensual, em um clima romântico, luzes, música e ela insinuando um strip-tease que me levou a loucura. Tudo funcionou perfeitamente, a internet não teve nenhum ruído. E é claro, daqui do meu lado, também não fiz feio, sensualizei o máximo que pude. Chegamos juntos no momento do clímax, mesmo com fuso horário. Coloquei o esperma, com todo carinho e cuidado, no frasco entregue pela empresa. No mesmo dia vieram coletar e despachar para Bruxelas.

Não via a hora de saber, se o sêmen tinha chegado bem, se a inseminação tinha dado certo e se a Maruska tinha engravidado. Era aquele nervosismo de pai de primeira viagem. E deu tudo certo. A Maruska é dez, melhor esposa que poderia ter escolhido, e agora mãe de meu filho. Assisti tudo em tempo integral, ela filmou todo o parto, senti daqui o bater do coraçãozinho de nosso filho, não tem emoção maior. E foi apaixonante ver os olhos felizes da Maruska com o nosso baby no colo.


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