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Ao Mestre Galvani, nossa reverência.

Esta é uma crônica sobre as relações humanas!

Tenho a honra de substituir, temporariamente, o titular desta coluna.

Uma honra em todos os sentidos, por ocupar seu espaço, por ter sido convidado para escrever para você leitor, mas o principal, falar hoje de Walter Galvani da Silveira.

Minha formação em História me impõe a condição de lembrar, revelar, observar e compreender tudo o que diz respeito de sociedade, humanidades e evolução. Assim se faz necessário, e até prioritário, tratar da memória. As atividades humanas são a matéria prima para escrever esta história, o que torna imprescindível falar aqui hoje sobre o “Seu Galvani”. Vou contar a história, como ouvi do próprio jornalista em longas conversas no Arquivo de Jornais do Correio do Povo, ou a sombra de uma árvore de jabuticaba na cidade de Guaíba próxima a Praia da Alegria.

Ao aprofundarmos sobre o dono deste espaço, precisamos retornar ao ano de 1955, quando o jovem canoense Galvani iniciou sua carreira como jornalista no jornal Correio do Povo, um casamento perfeito que dura até a atualidade. A relação profissional e pessoal fundiu-se desde então, foi no Correio que Galvani viu o mundo e contou a milhares o que via, através de seus textos, como faz hoje aqui nesta coluna semanalmente, e foi ali que se tornou um escritor, que foi chefe de redação, e, acima de tudo, um grande jornalista.

Foi dele a principal divulgação de um grupo de livreiros que se juntavam em barraquinhas na Praça da Alfândega pela primeira vez em 1955 para vender livros (Feira do Livro) que mais tarde o abraçou como Patrono, foi dele a Campanha de mobilização na década de 1970, que salvou o Mercado Público de Porto Alegre da demolição, que escreveu a única biografia de Pedro Álvares Cabral (“Nau Capitânia – Pedro Álvares Cabral, como e com que começamos”) em todo o mundo e que lhe rendeu o prêmio internacional “Casa de Las Américas” em Cuba no ano de 2001, que criou o cargo de estagiário para futuros jornalistas.

O espaço aqui seria curto para tanta memória, talvez uma autobiografia fosse algo muito interessante para o público. Das histórias que escutei uma me chama atenção:

Logo no início da carreira o jovem Galvani em seus primeiros dias como repórter esportivo, recebeu a tarefa do editor para entrevistar Oswaldo Rolla, o “Foguinho” então técnico do Grêmio. Foguinho exercia o cargo de técnico e também era alfaiate, trabalhava alfaiataria Aliança na Rua da Praia, e foi para lá que o repórter se dirigiu.

Talvez Oswaldo tenha simpatizado com o novo repórter e resolveu impulsionar sua promissora carreira, legou-lhe de pronto um “furo” jornalístico afirmando que o goleiro Sérgio (grande ídolo do clube por anos) estava fora do time. Galvani dirigiu-se até a redação e seu “furo” ganhou destaque com letras garrafais “Rolla afirma: Sérgio está fora do Grêmio”.

Ao chegar outro dia à sede do jornal, na porta, o contínuo da redação informou Galvani para se preparar, pois a direção do Grêmio encontrava-se em peso na sala do diretor Breno Caldas. Galvani foi chamado e viu o ódio no olhar dos dirigentes e seu diretor em dúvida quanto à manchete publicada, foi quando entraram em contato com Foguinho e o mesmo afirmou categoricamente: “Galvani está correto, assino embaixo, Sérgio está fora”, e estava mesmo, dias depois foi o que ocorreu, alicerçando assim a carreira do jovem jornalista logo em uma de suas primeiras pautas.

Este senhor que hoje circula entre nós nas ruas de Guaíba, Porto Alegre e Canoas, tem o título de Cidadão Honorário em todas estas cidades, por onde passa Galvani deixa em seu rastro amigos e honrarias. Sua maior virtude é a escrita, no entanto, a generosidade é seu maior segredo!

Este que aqui escreve hoje é resultado desta generosidade. Em 2008 quando recém estava formado, conheci Walter Galvani pessoalmente, no primeiro contato me questionou sobre diversos assuntos, entre eles a origem do meu nome.

- Tu conheces a biografia de Shakespeare?

Respondi negativamente. Ao retornar do almoço Galvani trouxe de presente a biografia do Bardo, na dedicatória estava escrito: “Para o William com a recomendação de outro William, o Shakespeare, e um abraço do Walter Galvani”.

Desde então me ensinou a crônica e o texto jornalístico, descobrimos a paixão pelos aviões e a vontade semelhante de infância em ser piloto de caça, permitiu trabalhar em seus livros, acompanha-lo nos lugares, almoçar com ele e a “Dona” Carla, e até ir ao cinema com os dois, contou os bastidores do jornalismo, possibilitou-me alçar voos mais altos, escreveu o prefácio do meu livro. Devemos levar em conta que eu era um estranho e em questão de minutos já era seu grande amigo.

São 12 anos de uma grande amizade do qual me orgulho. A simplicidade é outra de suas virtudes, então, não se surpreenda se cruzar com Galvani na Rua da Praia em Porto Alegre, no “caisinho” em Guaíba ou na Praça do Avião em Canoas. Se isto acontecer, cabe aí uma reverência, um aperto de mãos e até uma breve troca de palavras, saiba que está ali um dos grandes intelectuais do Rio Grande do Sul e do Brasil.


*William Keffer – historiador e escritor


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