a sombra escrita da imagem De Altair Martins


31. NÃO O BASTANTE SOBRE AS TÁBUAS DE UM CAIS IMPROVISADO

Não o bastante sobre as tábuas de um cais improvisado:
meus olhos
meu passo
um barco.

No entanto era outro o barco que me prometi
e no entanto nem é este.
Porque nunca soube por que o imaginado
antes
(entre as lascas e os amassões)
aceitou-se inquilino do que me alugava o olho
e se repetia: os dias.

(O olho sempre aquém do encanto).
Antes do olho antes de aberto
começa o que se projeta
e se esbate contra a pedra
(algo já morto antes).

E agora o que me impulsiona o corpo
já não me convence mais agora.
Apenas é a visão que se cola num desenho nítido:
como as glórias e o leite azedo que me dividiram
como as tábuas suturadas de um desmanche
como uma passagem
como uma vertigem apenas.

Porque vejo que depois dos quarenta
o horizonte se esquiva cada vez mais daquilo que antevejo:
porque nenhum pé de sol vai assumir meus compromissos,
porque assim a luz que tudo infla diminui o erro
do visto e do que visto.

Por um ruído de madeira e prego e corda e barco e água
encontro cada vez mais cedo
o que derramei na primeira sombra
por uma janela hoje cedo.
Aos poucos, eis o que podemos coar da vida:
que caminhamos ao árido e com menos boca
que colamos murmúrios e água amarga
sobre o que antes era a nossa boca:
a boca que comia, a boca que libava, que amava,
a boca que não calava a boca.

Então, quando nenhuma imagem nos engana mais
e não enganamos mais aos filhos
e aos estudantes de escrita criativa,
restam as tábuas sobre as tábuas
que restaram como obrigação:
caminhe por aqui, diz o cais,
cumprindo o que não mostra nem imagino apodrecer
na sola da água.

E enquanto caminho, se dissolvem lá atrás
(nas prévias do que imagino) um cais e um barco
que não passam neste cais nem embarcam neste barco.
ÁUDIO DO AUTOR: https://drive.google.com/file/d/1qKbqRb8vVPkJ4b9ypG5lmDtbxMEG5yUl/view?usp=sharing

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