a sombra escrita da imagem

63. Infância

{Altair Martins]

Escritor e professor



O monstro colocava

revistas de sexo com cenas as mais didáticas

sob os nossos travesseiros.

Às vezes o monstro era um pai

e mesmo assim não dizia boa noite.

Rezávamos pra dentro

a fim de que nossas barbas se espalhassem pelo corpo.

O monstro nos acordava com ordens

(desconfio de que ele nunca dormiu).


Escovávamos os dentes já uniformizados

encarando o espelho

onde figurinhas com mulheres peladas

trafegavam desordenadamente.

É preciso não ter pena

quando se mata um bicho. Era assim

que o monstro parecido com o avô nos ensinava.

E mostrava como pregar apelidos e tapas

sobre a cabeça dos fracos,

especialmente as mulheres.


Homem que não mete a mão em mulher

não é homem, íamos entendendo,

quando o monstro às vezes era um tio.

(Eu sofria pra ser homem

e tinha um medo enorme

de não ter um lugar no mundo

nem engrossar a voz).


Naquela noite

o monstro (parecido com meu irmão mais velho)

cercou uma menina que voltava pra casa.

Ele nos ensinou a fazer barulhos de gato

e sugar a saliva com a boca.

Mostrou que podíamos tocá-la, sobretudo pelas costas.

E como não fiz barulho de gato nem suguei a saliva

ou tive mãos,

o monstro (agora parecido comigo)

gritou que eu apertasse os seios dela

(mas aqueles olhos eu não consegui).

Foi por isso que os monstros (não vi quantos)

bateram em mim e depois me mandaram ir embora,

e eu fui.


Embaixo de uma unha ferida e levantada,

como uma asa,

encontrei os motivos que afinam a voz

e pedem socorro.


CONFIRA ÁUDIO DO AUTOR: https://drive.google.com/file/d/1RY8thprQO4iVODbF5oFKZTdEQvthkb2s/view?usp=sharing


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