a sombra escrita da imagem

41. PAISAGEM MÍNIMA

Altair Martins



Se na planta que vi de muito muito perto

existe ainda

aquela mesma mão espalmada

de mil e tantos dedos

e veias azuis e amarelas

fluindo para as digitais do verde,

deve ser isso lá uma dívida ou dádiva do sol.


E se é mesmo mentira

que perto do olho

todo mundo é feio,

talvez seja verdade

que de perto

(falo da cara ampliada

de uma planta de jardim)

tudo é primeira vez

quando o longe

não tem fisionomia

porque é só coleção.


É que se vista entre flores e entre muro

entre terra e entre vaso e entre paredes

e entre patamares e molduras,

a folhagem do pátio assim não tem nome

nem potência de rosto,

ou pele que estenda sotaque

ou grafia que diga eu aqui,

assim que esse semblante de planta só é capaz

de susto, de salto, de coice

quando tão dentro do olho

que dentro

de uma inauguração.


E se a folhagem essa se emula

de rio entre colinas,

e se a folhagem se emula

de pluma,

de coração de cebola,

e se a folhagem se emula

de coluna entre costelas,

e se ela toda se anima

com acenos de clorofila,

talvez seja isso

uma paisagem mínima.


Então me afasto

da microscopia da folha

e é tarde e piso

(fora do quintal)

na névoa cômoda do dia

que me panorama,

me estreita

e anestesia.

Áudio:https://drive.google.com/file/d/1q5plwSlCG4X179veBa6-ud1TDgPlffuk/view?usp=sharing

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