Livreiro do Guaíba

Aforismos do fundo da lata

person

Terceirização

As redes sociais tomaram conta do mundo e são a prova que faltava de que terceirizamos nossa inteligência.

Entre o Ártico e Brasília

O nível do gelo no Ártico atingiu o oitavo menor índice da história. A piada do momento é que o derretimento das calotas polares já preocupa Temer que já mandou investigar se a falta de gelo pode afetar as reuniões regadas a Wisky que ele realiza no Palácio Jaburu em busca de apoio na Câmara dos Deputados.

Palpite

Para quem gosta de seguir a intuição, nunca é demais lembrar que a ignorância intuitiva não exige o menor esforço.

Em geral

Todo poeta é poeta, todo político  é político. Só são bons ou maus de acordo com as nossas expectativas.

Arte

 A sacanagem está em quem contempla e não em quem propõe contemplar.

 Teóricos

Na teoria, toda teoria não passa de teoria.

Na hora H

A frase certa está sempre  no lugar errado.

Barulheira

No meio de toda essa gritaria, quem  fala mais alto ainda é o silêncio.

Velhos tempos

 Como eram bons aqueles velhos tempos em que os velhos sempre eram os outros.

Nada vem

Na medida em que os anos passam, a memória começa a falhar, mãos tremem, o corpo muda, a força diminui, os ossos se tornam mais frágeis e as articulações não têm mais a mesma flexibilidade. A sabedoria, porém, não vem com a idade, ela tem que ser pacientemente cultivada e praticada.

Para uso próprio

 Convém sempre ter uma trouxinha de melancolia nas gavetas de euforias

Camundongos de Kafka

person

Há escritores que quanto mais o tempo passa mais se tornam atuais. Um exemplo é o Austríaco franz Kafka (1883/1924). As palavras de Kafka, escritas nas primeiras duas décadas do século dezenove, não perdem sua atualidade. Um exemplo é a miniestória “Camundonguinho”, que faz parte do livro de contos e parábolas “oportunidade para um Pequeno Desespero”, publicado no Brasil pela editora Martins fontes.

“Quando o pequeno camundongo, que fora amado no mundo dos camundongos como nenhum outro, em uma madrugada caiu na ratoeira e com um alto berro deu sua vida pela visão de um toucinho, todos os camundongos das redondezas foram tomados por um tremor e uma agitação em suas tocas. Olharam-se uns aos outros em série, com os olhos piscando incontrolavelmente, enquanto a cauda esfregava o chão com um zelo inútil. Então saíram hesitantes, um empurrando o outro, todos atraídos para o local da morte. Ali jazia ele, o camundonguinho querido, o ferro na nuca, as perninhas cor-de-rosa encolhidas, paralisando o fraco corpo que teria sido tão bem agraciado com um pouco de toucinho. os pais estavam de pé ao lado e observavam os restos de seu filho”.

Não vou me por aqui a explicar a parábola, mas nosso mundo está repleto de toucinho e de pessoas dispostas a dar a vida por um.

Tudo em Kafka é breve. Conciso. haverá algo neste universo que seja mais efêmero do que a vida humana? o que representam os nossos parcos anos de vida frente aos mais de quatro bilhões de anos de existência do planeta terra? A vida humana e inteligente existe no planeta apenas nos últimos doze mil anos e sugere uma brevidade imensa.

Kafka, como ninguém, entendeu a brevidade. A urgência. A vida tem pressa, mas no mundo atual ocorre o oposto.  A sobrevivência da vida no planeta exige imensa urgência em aprender e entender, mas passamos a maior parte do nosso tempo envolvidos com futilidades sem a menor importância. Uma espécie de torpor anestesia criaturas em um mundo que funciona no automático. Indivíduos alheados relutam em adquirir consciência e entender a própria existência. Em bandos, seguimos instintos primitivos e vivemos em uma espécie de moto-contínuo. Nos surpreendemos com as mesmas surpresas, nos assustamos com os mesmos sustos.

Os camundongos de Kafka ensinam muito mais sobre humanos, costumes e tecnologia, do que sobre toucinho e ratos.

Pescador de automóveis

person

Ouvi dizer de uma antiga lenda indígena que falava de almas da madrugada. Almas que ainda não partiram ao seu destino, durante a noite ficam vagando entre a floresta, baixinho, às vezes rente ao solo, entre plantas, flores e orvalho fresco. Diziam que flanavam entre as aldeias, esperando o momento de serem lançadas às suas novas vidas. Aproveitavam o frescor, o silêncio e apreciavam o aroma vital que brotava da natureza. E se recolhiam quando o sol mostrava o poder da luz sobre as trevas. Acreditavam os nativos que as almas se fossem assustadas, desatavam em louca correria, formando rios de vento que arrastavam muitas vezes plantações de mandioca, galhos e até aldeias inteiras.

As pessoas daquela tribo acordavam lentamente com a alvorada. Faziam ruídos mínimos, falavam baixinho para não assustar nem afugentar os espíritos da floresta. O alvorecer era um momento em que só a passarada cantava para acordar o dia que se espreguiçava entre o arvoredo.

Lembrei desta história outro dia em que me dirigia ao centro da cidade e deparei com aquele homem que, eventualmente, fica numa das rotatórias da Zona Sul com uma vara de pescar. Com uma vara joga sua linha como se pescasse num rio de automóveis. “O louco que tenta pescar automóveis,” me disseram no posto de combustíveis quando perguntei se sabiam quem era.

Dizem que os loucos, os visionários, veem o que nós, que nos consideramos “normais”, não conseguimos enxergar. Quem sabe ele não veja as almas penadas assustadas em sua fuga, com medo do nosso estúpido alarido e com a nossa falta de jeito com o que não conhecemos? Somos uma raça barulhenta e não respeitamos nada, muito menos hipotéticas almas da madrugada em busca de silêncio para não se assustar. Quem sabe se a lenda indígena não tenha uma boa porção de lógica. As pessoas das matas cuidavam para não assustar as almas, pois também acreditavam que estas, se assustadas, além dos vendavais que causavam, ao reencarnar se tornariam pessoas transtornadas e perturbadas.

Isso até explicaria um pouco esse mundo caótico, cada vez mais insano e de gente túrbida em que vivemos. Não respeitamos sequer os nossos próprios limites e necessidades, nem nos damos o direito de um amanhecer tranquilo. Acordamos atrasados e assustados partimos numa correria insana. Quem sabe se aquele homem com sua vara de pescar não esteja, de certa forma, nos mostrando que até a loucura, nos dias de hoje, seja mais sensata do que a nossa estúpida realidade.

O Filho do Filho e o Pai do Pai

person

Muitos homens, alguns pais, outros não, deixaram sua marca na história. Pensadores, filósofos, cientistas contribuíram, com estudos e dedicação, para que o mundo seja do jeito que ele é. Grandes políticos e líderes também deixaram suas marcas. Mas ter seu nome lembrado por gerações futuras não é coisa para amadores. Requer que o sujeito faça algo realmente notável, inusitado, importante. Algo que contribua para mudar, aperfeiçoar ou até, como já aconteceu várias vezes, piorar nossa estada neste planeta. Sim. Os vilões também deixam suas marcas. O mundo não seria o que é hoje, sem Hitler, Napoleão ou tantos outros que mesmo de forma negativa modificaram conjunturas, mexeram em relações estabelecidas e deixaram lições importantes para a humanidade.

Antigos teóricos da comunicação diziam que no futuro todo mundo teria seus quinze minutos de fama. Pois bem. O futuro chegou e a história não é bem assim. A população do planeta já passa dos sete bilhões de habitantes, sete mil milhões, diriam os portugueses. Se todo mundo resolvesse ficar famoso no grito, teríamos uma gritaria que seria ouvida três léguas depois da galáxia de Andrômeda. Para quem não sabe onde fica, posso adiantar que é longe. Bem pra lá de Bagé.

Mas, amigo pai, não se desespere. Todos nós ainda temos uma chance de entrar para os anais da história. Se nossos filhos fizerem melhor do que nós, ou muito pior, poderemos ter um lugarzinho na história como pai deles. Pablo Neruda era filho de um ferroviário que muito se orgulhava do filho poeta. Claro que depende de como nos comportamos como pais que nossos filhos seguirão um caminho ou outro. Certamente o jurista Carlos Napoleão tinha muito orgulho de seu filho. Já a obra do escritor Franz Kafka é repleta de relatos de brutalidade física, psicológica e conflitos com o pai. Histórias boas nem sempre acabam bem e outras que tinham tudo para virar  trágicas podem se tornar extraordinárias. Nunca se sabe.

Antes de mais nada, a paternidade requer paciência e vontade de aprender. Não ensinamos nossos filhos a ser filhos, aprendemos a ser pais.

Além dos humanos, muitos animais também formam famílias. Neste domingo, em que comemoramos o dia dos pais, bem que poderíamos realizar um exercício simples e trocar de lugar. Cada filho assumiria o papel do pai e este o do filho. Ver e sentir-no no lugar do outro ainda é uma das qualidades que nos diferencia dos animais. Saber-se compreendido e entender que estamos todos juntos num mesmo barco à deriva, neste mar revolto que navegamos ultimamente, será, sem dúvida, um presente para todos.

Quando eu crescer

person

A vida da gente e muito engraçada. Quando jovens, temos uma pressa danada para crescer. Não vemos a hora de ser livres, donos do próprio nariz e poder sair pelo mundo afora. A liberdade se torna um mantra perseguido em tempo integral. Parece que nunca vai chegar o dia de termos barba, automóvel próprio, direito de ir e voltar quando bem entendermos, essas coisas.

O tempo passa, a vida segue e daqui a pouco a gente casa, vem os filhos e com eles muda tudo. De uma hora para outra, o que antes era namoro, festas, cineminha, se transforma em fraldas, mamadeiras, roupinhas e um mundaréu de novidades que não faziam parte da nossa doce vidinha sem filhos. O mundo vira de cabeça para baixo e temos que aprender, na marra, a segurar as pontas e não deixar a peteca cair.

Claro que morremos de paixão pelos miúdos. Acabam nos dotando do senso que a vida não tinha. Se alguém pensa que a vida não tem nexo, basta olhar para os filhos com a devida profundidade que tudo fara sentido.

Mas a vida segue. Apesar de toda a correria com as crianças para creche, escola, pediatras e se tornar assíduo frequentador de circos, matines e parquinhos de diversão, chega o dia que vão embora. Sim. Eles crescem e vão embora. A gente chora, tem saudade, mas aguenta porque sabe que a vida e assim. O rio corre sempre no mesmo sentido. E nada muda a ordem natural das coisas.

Sem perceber, a liberdade que sonhávamos lá no início da nossa vida, volta a se descortinar a nossa frente. Estamos maduros, aprendemos muito, temos meia idade e uma vida inteira pela frente. E o que fazemos? Adotamos um cachorro. Um não! Dois. E aproveitamos o embalo para incluir também dois gatos, pois são todos muito fofinhos, peludinhos e amáveis. Eles nos divertem, dão cambalhotas, ronronam e entram na nossa vida de forma definitiva e implacável.

O que era nossa rotina com os filhos só muda de endereço e passamos a viver em função de vacinas, rações pra isso e aquilo, pet shops e veterinários. Sem falar em shampoos, brinquedinhos, colchonetes e um mundo de novidades. Se ainda fosse como no tempo em que os bichos se contentavam com os restos da nossa comida, ainda vá lá. Inventaram tantas coisas que ate arrisco a dizer que bicharada já esta dando tanto trabalho quanto davam os filhos. E eles entram em nossa vida pra ficar. Não se formam, não casam, nem vão embora e a nossa sonhada liberdade, mais uma vez, fica pra quando der.

Quando eu crescer não quero ter cachorro.

 

A luminária e os miguelitos

person

 

Toda vez que passo pelo cruzamento da Av. Castelo Branco com a Av. Antenor Caldas, me chama atenção uma geringonça de ferro no gramado da rotatória. Provavelmente era a parte superior do poste de iluminação que deveria iluminar aquela área e que, por algum motivo, não está em seu devido e original local cumprindo o seu nobre papel.  

Não imagino como foi parar ali, no chão. Algum acidente, vendaval ou talvez tenha caído sozinha. Não se pode duvidar de nada. Alguém pode ter visto como aconteceu ou avisado a prefeitura, mas como nestes nossos dias malucos todo mundo anda na correria, ninguém lembra. Os passantes se acostumaram com aquilo lá e nem notam mais. Até a grama foi cortada metodicamente ao redor daquele traste.  

Outro dia, numa sexta-feira de greve, um daqueles “miguelitos (pra quem não sabe são pregos emendados com solda que malandros deixam nas ruas para furar os pneus e depois assaltar os motoristas) esquecidos” pelos grevistas, não entendeu que eu não era fura-greve e furou inadvertidamente o pneu do meu automóvel. Já repararam que as greves sempre acabam atingindo aqueles que não tem nada a ver com as demandas dos grevistas? Ora, pois, enquanto examinava a situação, aproveitei que um transeunte passava e tentei descobrir se ele sabia o que houve com aquela luminária. O homem olhou espantado e disse que apesar de morar nas proximidades, nunca tinha reparado que aquilo estava no chão.  

Eis que a humanidade acaba de descortinar a existência de mais um mistério. Cheguei a imaginar que no futuro nossa gloriosa luminária de Guaíba venha a ser estudada tal qual as pirâmides do Egito ou o triângulo das Bermudas. Um enigma.  

Como nosso pensamento voa, principalmente quando desprovido de uma explicação lógica. Fiquei imaginando o motivo pelo qual aquela cangalha continue daquele jeito, provavelmente há mais de ano.  

Quem sabe seja algum experimento científico, alguma experiência tecno-biológica e que daquela ferragem, feito semente, daqui a pouco não nasça um novo postezinho que irá crescer, crescer e feito  flor gigante, abrir novamente suas pétalas para iluminar a cidade. Vai que...  

Poderiam até, quem sabe, erguer ali um museu da luminária caída, com visitação pública, cobrança de ingresso e tudo. Do jeito que o mundo anda, bastará uma boa propaganda dizendo que aquela coisa veio do espaço e caiu de um disco voador. Eu não ficaria admirado em ver imensas filas esperando para ver de perto o fabuloso enigma da luminária espacial.  

Enquanto nada acontece, sigo tal qual os demais distraídos e apressados que passam por lá. Desde aquele dia, porém, contorno a rotatória lentamente tentando desviar de outros miguelitos que por desventura ou sacanagem estejam por lá esquecidos.

 

 

 

 

Armas e flores

person

A julgar pelos sonhos que ando tendo, meu mundo interior está em crise. Tal qual “coxinhas” contra “petralhas” ou políticos contra defensores da “Lava Jato”, meu “Animal Interior” não se entende mais com meu “zen” e tranquilo “Unsui Interior”. Antigamente eles se respeitavam, eram cordiais e educados, dividiam meus sonhos de modo a não quebrar nada e deixar tudo mais ou menos intacto no meu status quo íntimo e não entravam em guerra por qualquer miçanga à toa.
Não sei se motivados pela crise política e social que vivemos, o fato é que os dois batem boca toda hora, partem para as “vias de fato” e meus sonhos viraram uma bagunça generalizada.
Noite dessas, o meu animal interior resolveu entrar na campanha Armas Pela Vida e passou a madrugada a distribuir pistolas de uso do Exército para as crianças nas escolas. Meu eu “zen” o seguia e convencia as crianças a trocar as armas por livros e as enterrava (as armas, não as crianças). Das covas nasciam belas flores que enfeitavam as escolas com imensos jardins coloridos. Ficou bonito, mas deu um trabalho danado. Acordei de madrugada, cansado de tanto trabalhar.
Nossos sonhos costumam acomodar nossas vivências. Devo ter sonhado com as tais armas motivado pela campanha “Armas pela vida” (Sério que agora armas não matam?) que vem ganhando a grande imprensa visando rechaçar o estatuto do desarmamento. A parte das flores no meu sonho deve ter surgido pela leitura do livro “Homens imprudentemente poéticos” do Valter Hugo Mãe.
A campanha, que pretende vender armas para a população, sustenta que todos têm direito a defesa. Claro que tem. Só insisto que essa função deve se manter do estado, pois de outra forma, daqui a pouco, todo mundo vai sair por aí resolvendo suas diferenças a tiro. Já bastam as balas perdidas de traficantes e policiais a ceifar vidas por todos os lados em qualquer hora do dia ou da noite.
Respeito quem pensa que a população armada ficará mais segura, até por que não ando armado desde que saí do Exército e não tenho a menor vocação para ser transformado em alvo por algum amante de armas mais fervoroso.
As flores na minha cabeça surgiram do personagem do Livro de Valter Hugo Mãe, o qual, motivado pela profecia de que sua mulher seria morta por um animal, uma fera ou monstro, resolve criar um imenso jardim ao redor da sua casa. Ele esperava que as flores, com suas cores e beleza, pudessem funcionar como uma escola que educasse as feras (animais ou homens?). O personagem explica acreditar “numa lição de ternura e respeito que ensinaria a todas as fomes a importância de respeitar a vida das pessoas.” Educar pela arte, pela beleza e pela cultura, sempre será mais eficiente do que colocar uma arma na mão do povo e mandar se virar por conta própria.
Eis que meu subconsciente resolveu a parada ao modo de Hugo Mãe. Todos temos nosso lado animal. Podemos dotá-lo de armas ou de flores. A escolha só depende de nós e do tipo de vida que queremos. A paz ou a guerra.

Mais, Mais Poetas

person

 

 

Mais, mais poetas

 

Tenho um pedido para o Sr. Papai Noel. Sei que estou meio crescido para isso, mas não custa tentar. Vai que, apiedado por tamanha insensatez, vossa senhoria, aqui por nós conhecido também como bom velhinho ou seja lá qual divindade que tenha a incumbência de atender pedidos insanos, resolva atender-me.

Pois, humildemente com esta missiva peço-vos poetas. Não, não são seus óculos, leste certo estimado benfeitor. Rogo por poetas e com sua devida licença e amável paciência, explico meu peditório. Desconfio que o mundo esteja tão repleto de mazelas, bagunças, escaramuças, desavenças e até guerras, devido à descomunal escassez de poetas.

Contam que Goethe, no ocaso de sua vida, ainda clamou, “Licht, Mehr Licht” (luz, mais luz). Acredito que mais poetas poderão transformar em realidade o pedido do grande poeta e escritor alemão. A poesia tem o poder de aquecer nossos corações e iluminar nosso pensamento com arte e sabedoria.

A falta de poesia impregna nosso mundo de ameaças, impropérios, xingamentos, ofensas e impiedade. Isso sem citar o despropósito de corrupção e trapaças. Não que, vez por outra, não nos irrompa uma grande vontade de também dizer algumas verdades, mas, poetas, se fossemos, as diríamos com rima para abrandar as agruras, métrica para amornar as fervuras, enfim, versos para adoçar azedumes.

Não trago dúvidas de que em um mundo feito de poetas, muito melhor de se viver seria. Fico a imaginá-los por todos os lados, nas ruas, nas farmácias, nos supermercados, anunciando seus produtos com sabia maestria. Ambulantes anunciando em cantigas, Pipoqueiros estourando em poemas, Vendedores de picolés recitando refrescantes inspirações. Até multa de trânsito receberíamos em versos ritmados que nos deixariam menos patetas.

Ah! Mestres, sábios poetas, ensinariam nossas crianças as delícias da rima, as delicadezas da alma para exprimir sentimentos sem ofensas, mas se necessário, como navalhas precisas aprenderiam a cortar sem ferir. Mais poetas surgiriam assim nas escolas e partiriam para a vida feito menestréis, trovadores e cantores. Médicos poetas receitariam versos e as enfermidades se tornariam menos tristes. Juízes poetas, julgariam com a rima necessária para uma justa igualdade.

Por isso, estimado Papai Noel, peço-vos este inusitado presente. Sei que poetas não caem do céu, nem brotam feito maná, mas onde estiverem saberão harmonizar, embelezar e por que não, lapidar, este nosso mundo tão tosco, estranho e bruto.

Sábio, Dilan Camargo, já propõe chamá-los em casos de graves ameaças.

“Se algum mal nos afeta,

se tem criança analfabeta,

se o corrupto se locupleta,

Chamem o poeta!”

“Se for pouco um poeta

chamem um enxame de poetas.

Não importa que mais chamem

do que amem e declamem o poeta.

Chamem o poeta!

Chamem o poeta!”

 

 

Mais , Mais Poetas

 

Ainda não somos símios

person

Nestes úmidos dias de inverno, quase não resistimos a tentação de coaxar, enquanto rios em profusão escorrem pelas paredes transformando nossas casas em úmidas cavernas. Resta-nos o bálsamo de uma poltrona confortável perto da lareira, um cálice de um robusto vinho tinto e um bom livro para transformar o que parecia ruim, em momentos agradáveis e prazerosos.

Sendo franco, estou cá com meu peixe na mira, como diz o Galvani em seu “O Voo da Gaivota”, a rodopiar pelo papel imaginário desta página de tablet, em busca do momento certo para dar o bote e abocanhar meu peixe que é o assunto real que busco escrever nestas linhas.

Edward Znowden, aquele que vazou documentos secretos da Agência Nacional de Segurança Americana, disse no final do ano passado, em sua mensagem de Natal que o mundo está perdendo a noção de privacidade.

Muito já foi dito sobre as mudanças de hábitos a que estamos sendo submetidos, uma vez que a insegurança para sair à noite nos prende cada vez mais em nossas cavernas. Além dela, outro fator que faz com que muita gente deixe de frequentar certos ambientes, como cinemas e restaurantes, é a falta de educação dos demais frequentadores. Já tive que assistir a um filme com três ou quatro criaturas atrás de mim se matando de rir de algumas cenas que não tinham a menor graça. Trágicas, até. Faz anos que não assisto novelas, mas outro dia, num restaurante, fiquei sabendo tudo sobre uma nova novela da televisão que era narrada por uma criatura em altos brados, numa mesa nas imediações.

Definitivamente estamos perdendo a noção de privacidade, quando resolvemos falar aos gritos em locais públicos ou quando hordas de criaturas vociferantes invadem restaurantes como se estivessem no quintal de suas casas.  Sinal de tempos novos em que a educação, rara e fora de moda, cede lugar a novas atitudes de fazer o que se quer onde quer que se esteja e o resto que se dane. O mundo precisa encontrar uma forma de mostrar a essas criaturas que não somos bandos de símios saltitantes uivando na selva africana.

Bons tempos, aqueles em que se tiravam os chapéus nos restaurantes, ouviam-se uma suave música ambiente e alguns tímidos tilintares de talheres discretos.

Mas nem tudo, senhoras e senhores, amantes dos bons modos, está perdido. Descobri, em tempo, que ir cedo ao cinema e aos restaurantes, antes que a turba barulhenta chegue, nos permite tranquilidade e sossego. Assim quando estes estiverem indo, estaremos voltando para o sossego e aconchego dos nossos tranquilos lares.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 15 de agosto de 2014

Falso ou verdadeiro

person

Se existe uma coisa que já faz parte da vida humana é a falsidade. Para qualquer ponto que olharmos sempre encontraremos algo falso ou adulterado.

Já nem falo dos clássicos falsos como o Wiskey ou os perfumes do Paraguai. Nem do olhar fraternal e do sorriso ensaiado dos políticos candidatos.

A falsidade está tão profundamente incrustada em nossa vida que, na maioria das vezes, nem a percebemos. A bem da verdade, podemos facilmente constatar que praticamente tudo ao nosso redor pode ser inautêntico.

Quando abrimos a caixa de um produto no supermercado descobrimos que nem de longe ele tem algo a ver com a linda foto que ilustra a embalagem. No futebol, li não sei onde que um sósia do Neymar teria ficado engessado enquanto o verdadeiro que nem estaria machucado, dava umas bandas por aí com algumas garotas. Vejam a que ponto chegamos. Aí, no caso, ou a notícia é falsa, ou o sujeito. Talvez o time todo do Brasil na Copa tenha sido falso. Vai ver que os comunistas tenham trocado os verdadeiros por sósias, mas no final das contas perna de pau por perna de pau, deu tudo na mesma.

No meio dessa falsidade toda nem ouso falar de loiras ou ruivas falsas. Elas já são tão naturais que uma morena de cabelos vermelhos já é uma legítima ruiva de nascença. Portanto não é falsa.

Vejamos algo mais inerente ao nosso dia a dia como o leite, por exemplo. O Sr. ou a senhora dona de casa acreditam que, realmente, aquele líquido branco que vem dentro de caixinhas ou saquinhos no supermercado seja leite? Uma boa maneira de saber se algo é falso ou verdadeiro é fazer contas. Gosto de fazer contas. Vejamos: um sujeito paga uma nota preta por uma vaca, que precisa ser alimentada, cuidada e vacinada, ordenhada diariamente. Aí ele vende o seu produto para uma cooperativa que vai pasteurizar o leite, embalar, resfriar e transportar até o supermercado que vai vender aquele produto por dois reais. Só pode ser falso. Até uma lata de refrigerante, que é basicamente açúcar e água, custa mais do que isso.

Vejamos outra coisa. O sujeito vai para a escola e faz o ensino fundamental, termina o médio aprovado e se candidata a uma vaga de emprego, sem saber quanto é dez porcento de algum valor, uma simples regra de três, nem que se inicia uma frase com letra maiúscula. Não sei vocês, mas eu diria que a escola que esse sujeito frequentou é mais falsa que uma nota de trinta.

Mas a falsidade para dar certo precisa ser acompanhada de uma grande dose de faz de conta. Nisso somos especialistas. Um faz de conta que é verdadeiro e o outro faz de conta que acredita. E assim, viveremos felizes e contentes para toda a eternidade.

 

Publicado no jornal Nova Folha em 03 de agosto de 2014

Entre juras e promessas

person

A humanidade vive uma longa relação com os juramentos e as promessas. Desde a antiguidade corremos atrás de algo prometido sempre jurando e também prometendo, mas nem sempre cumprindo.

Nosso vocabulário está repleto de “prometo que mudarei, prometo que serei bonzinho daqui em diante, juro que caso, serei fiel para sempre, prometo que farei, comigo vai ser diferente”. Somos uma raça criativa e eternamente em busca de novas maneiras de dizer que nos comprometemos a fazer o improvável.

Desde os tempos bíblicos, apenas para citar um exemplo, o povo de Israel anda a perseguir a terra prometida. Desistiram de esperar que a profecia se realize e resolveram retomar, por conta própria e na marra, a tal da terra de Israel. O problema só complicou um pouco, pois há muitos Palestinos que moram lá e matar milhares de homens, mulheres e crianças, na época das cruzadas, era barbada, mas hoje em dia pega mal.

Nas bandas de cá, agora que estamos nos aproximando das eleições, voltamos às promessas eleitorais.

 Candidatos prometem viadutos, estradas, túneis, pontes e qualquer coisa que convença aos incautos eleitores de que se forem os escolhidos atenderão aos anseios da população.

Nas relações amorosas, normalmente é o homem que promete que vai mudar que seu amor será eterno e sua fidelidade será absoluta.

Parece que os homens têm mais habilidade para prometer e jurar do que as mulheres. Na relação de candidatos a deputado do estado do Rio Grande do Sul, percebemos que a ampla maioria são homens. Isso pode não ser apenas uma questão de machismo em nosso estado, mas pode indicar também que os homens têm melhor aptidão para prometer e jurar do que as mulheres. Afinal, são milênios de experiência. É claro que toda regra sempre tem lá suas exceções e já existem algumas mulheres bem avançadas nessa arte de prometer. Mesmo assim, é raro encontrar uma mulher chegar em casa de madrugada e jurar para o marido que estava no escritório botando o serviço em dia ou então ajoelhada ante um pretendente jurar casamento e amor eterno. Enquanto isso, é provável que lá nos primórdios da humanidade o homem das cavernas já treinava nas promessas, quando prometia à companheira não caçar mais na caverna da vizinha.

Mas, a bem da verdade, quando chegamos ao ponto de ter que prometer que tomaremos determinada atitude, muitas vezes para nós mesmos, é porque já passamos da hora de fazer o que estamos dizendo. A promessa é uma forma que encontramos de nos desculpar e adiar o que não conseguimos ou não queremos realizar.

Mas enfim, as crianças da Palestina, esses perigosos terroristas de cinco anos de idade, continuarão sendo mortos nas creches da Faixa de Gaza, nossos políticos continuarão prometendo e nós continuaremos nos dizendo que, mesmo sem fazer nada, um dia tudo será diferente.

 

Publicado no jornal Nova Folha em 01 de agosto de 2014

Rubem Alves ainda tem algo a dizer

person

O escritor Rubem Alves faleceu no sábado, dia 19 de julho. Ele foi muito mais que escritor. Para muitos ele era um sábio, um filósofo que compartilhou textos, experiências e caminhos para sermos felizes e entendermos um pouco mais da vida.

Ele mesmo se dizia, além de educador e escritor, cronista, pedagogo, poeta, filósofo, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros infantis e até psicanalista, de acordo com sua página na internet.

Fala-se atualmente na educação em tempo integral que será, sem dúvida, uma evolução necessária para os próximos anos. Evolução, certamente não em sentido de um ensino melhor, mas na direção de algo que está sendo exigido pelo mercado de uma sociedade voltada exclusivamente para a produção de bens e para o consumo. Num mundo de casais distantes de avós e familiares, os filhos menores no turno inverso ficam aos cuidados da vida. Esse problema era resolvido com empregadas, frequentemente informais, as quais agora com suas profissões regulamentadas, tornam-se caras e inacessíveis para a maioria da população.

Não nos iludamos, entretanto, pensando que o projeto de educação em turno integral visa melhorar a qualidade do ensino. Ela visa cuidar das crianças enquanto os pais trabalham e, se der, as crianças poderão aproveitar para tentar aprender alguma coisa.

Arrisco dizer que a escola, hoje em dia, é muito mais recreativa do que disciplinadora ou educadora. Crianças e jovens adultos têm poucas regras a seguir e ocorrem casos de verdadeiras inversões de papéis, quando, muitas vezes, até judicialmente o professor é que deve se submeter às vontades do aluno. Atingimos um perigoso ponto de realizar a mágica de uma escola feliz. Temo que as crianças de hoje, que fazem o que querem, acabem um dia tendo que ser educadas pela polícia.

No livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, um dos muitos de Rubem Alves, ele nos diz que “Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade.” Conseguimos em um só golpe, liquidar a disciplina e a curiosidade.

Tenho uma imensa curiosidade a respeito do tipo de profissionais que estamos formando. O mercado de trabalho está recebendo jovens sem um mínimo de domínio sobre operações matemáticas, poucos conhecimentos gerais, sem hábitos de leitura nem a menor polidez, sem compromissos com horários, nem empenho para realizar tarefas. Precisamos reler Rubem Alves.

 

Publicado no jornal Nova Folha em 25 de julho de 2014.

Contos de fadas e a sabedoria de Buda

person

Estava lendo um artigo sobre as mudanças ocorridas ao longo dos séculos nas histórias infantis. Horrendas e assustadoras, elas serviam para preparar as crianças para uma vida de adultos em que encontrariam privações, dificuldades e infortúnios. Com o passar dos anos, elas foram sendo adocicadas, enfeitadas, ficando fofinhas e bonitinhas como atualmente.

Mas será que a vida humana, hoje em dia, realmente está tão melhor, a ponto de não precisarmos mais preparar as crianças para possíveis dificuldades que encontrarão ao longo de sua existência?

Enfim, quem ousaria contar para uma criança, por exemplo, como era lá por 1600, uma das versões que podem ter originado a história da bela adormecida? Nela, uma bonita princesa caiu em sono profundo, após espetar o dedo em uma farpa. Ao ser encontrada por um príncipe que a achou muito linda, foi estuprada e gerou, mesmo sem acordar, aos gêmeos, Sol e Lua. Um deles ao não encontrar o seio da mãe, suga com força o seu dedo, extrai o veneno e ela desperta. O príncipe casado, descobre que a bela adormecida está acordada e retorna para vê-la. Sua mulher enciumada manda cozinhar os gêmeos e servi-los ao pulador de cerca e queimar a dorminhoca numa fogueira. O cozinheiro não obedece e serve cabritos, no lugar das crianças, ao príncipe que descobre a trama da esposa e chega a tempo de evitar que queimassem a princesa e joga a própria mulher ao fogo. Assim o príncipe, a princesa e seus gêmeos agora formam uma nova família e vivem felizes para sempre.

Pensando bem, nada muito diferente dos enredos das novelas de televisão atuais. Do século quinze para cá, muitas coisas mudaram, mas a luta por um lugar ao sol continua. A diferença é que a criança, para sobreviver, precisava tornar-se adulta rapidamente naquela época, enquanto que hoje, não é raro encontrarmos crianças com trinta anos de idade que ainda vivem seus contos de fadas.

A sociedade atual nos protege e procura banir todos os fatores geradores de infortúnio da vida das crianças e adultos. Até os infratores são protegidos do sofrimento por leis.

O mestre Zen Thich Nhat  Hanh em seu livro “A Essência dos Ensinamentos de Buda” (Editora Rocco, R$ 43,00), ao contrário dessa visão atual, que nos protege do sofrimento, diz que durante quarenta e cinco anos o Buda repetiu: “O meu ensinamento é sobre o sofrimento e sua transformação.” O sofrimento foi o meio que o Buda usou para libertar a si mesmo, e é também o meio pelo qual todos nós podemos nos libertar. “Sem sofrimento não crescemos. Sem sofrimento não podemos obter a paz e a alegria que merecemos.”

 

Publicada no jornal Nova Folha em 11 de julho de 2014

Meus fantasmas

person

A imagem do homem de preto entre a multidão, não sei por que, Carlitos talvez, raptou meu olhar quando eu descia a escadaria para os trens. Os cheiros de peixes e outros irreconhecíveis odores do mercado público ficaram para trás e na minha frente uma massa de gente, que ia por um lado, contrastava com outra que vinha em sentido contrário, como um rio de gente que corre em duas direções. Parei por um instante para observar o homem que se deixava levar, ora por uma corrente de pessoas por certa distância, ora cambaleava o corpo para outro lado e voltava com outra.

A sua sobriedade no olhar não denunciava uso de drogas, nem demência. Ele apenas seguia, como seguisse blocos carnavalescos de pierrôs e colombinas imaginários, as levas de seres que, cada um com seus próprios pensamentos, sequer tomavam conhecimento da sua presença. A cena lembrou-me barquinhos de papel navegando à deriva nos valos das águas de chuvas nas enchentes.

Deixei-me levar pelo povaréu que seguia ao meu redor. O homem se aproximou trazido pela turba que vinha em minha direção. Ninguém notava a sua presença e quase na minha frente ele, novamente como em transe, guinou o corpo, girou e seguiu em direção contrária a que vinha. Tive a nítida sensação de que ele também não via ninguém. Por um momento encontrei certa lógica nesse pensamento. Se a multidão absorta e apressada não o percebia, tampouco ele haveria de perceber a multidão. Ele apenas fazia um curto e perceptível trajeto de ida e volta, enquanto que a multidão percorria igualmente, quem sabe com qual lógica, trajetos outros.

Dei de ombros e continuei em frente, levado pela multidão que me cercava, sabendo que em pouco estaria voltando com outra leva de gente pelo lado de lá.

Ocorreu-me um trecho de uma crônica do Cyro dos Anjos e talvez para não sucumbir à letárgica turba, tive vontade de recitá-la em voz alta. Minha voz me soou estranha, "ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade, parece-me a única estrada possível." O som da minha voz juntou-se às outras que gargalhavam ou falavam em telefones. "Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo".

Ninguém ouviu nem notou e segui meu caminho, tentando, como Cyro, encontrar os meus fantasmas e me conciliar com meu mundo.

A imagem do homem de preto entre a multidão, não sei por que, Carlitos talvez, raptou meu olhar quando eu descia a escadaria para os trens. Os cheiros de peixes e outros irreconhecíveis odores do mercado público ficaram para trás e na minha frente uma massa de gente, que ia por um lado, contrastava com outra que vinha em sentido contrário, como um rio de gente que corre em duas direções. Parei por um instante para observar o homem que se deixava levar, ora por uma corrente de pessoas por certa distância, ora cambaleava o corpo para outro lado e voltava com outra.

A sua sobriedade no olhar não denunciava uso de drogas, nem demência. Ele apenas seguia, como seguisse blocos carnavalescos de pierrôs e colombinas imaginários, as levas de seres que, cada um com seus próprios pensamentos, sequer tomavam conhecimento da sua presença. A cena lembrou-me barquinhos de papel navegando à deriva nos valos das águas de chuvas nas enchentes.

Deixei-me levar pelo povaréu que seguia ao meu redor. O homem se aproximou trazido pela turba que vinha em minha direção. Ninguém notava a sua presença e quase na minha frente ele, novamente como em transe, guinou o corpo, girou e seguiu em direção contrária a que vinha. Tive a nítida sensação de que ele também não via ninguém. Por um momento encontrei certa lógica nesse pensamento. Se a multidão absorta e apressada não o percebia, tampouco ele haveria de perceber a multidão. Ele apenas fazia um curto e perceptível trajeto de ida e volta, enquanto que a multidão percorria igualmente, quem sabe com qual lógica, trajetos outros.

Dei de ombros e continuei em frente, levado pela multidão que me cercava, sabendo que em pouco estaria voltando com outra leva de gente pelo lado de lá.

Ocorreu-me um trecho de uma crônica do Cyro dos Anjos e talvez para não sucumbir à letárgica turba, tive vontade de recitá-la em voz alta. Minha voz me soou estranha, “ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade, parece-me a única estrada possível.” O som da minha voz juntou-se às outras que gargalhavam ou falavam em telefones. “Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo”.

Ninguém ouviu nem notou e segui meu caminho, tentando, como Cyro, encontrar os meus fantasmas e me conciliar com meu mundo.

 

Publicado no jornal Nova Folha em 04 de julho de 2014

Nosso barril está quase cheio

person

Estamos cercados por tantas coisas e objetos pessoais que se nos propuséssemos a fazer um inventário de tudo, a lista ficaria enorme e, seguramente, muitos itens ainda ficariam de fora. Da caixinha de clipes de papel ao espremedor de laranjas, passando por aquele alicate que só aparece, e nos lugares mais inusitados, quando não se precisa dele, o número de utensílios que compõem a nossa vida pode facilmente chegar à casa dos milhares.

Somos bem parecidos com aqueles pássaros que carregam objetos brilhantes para seus ninhos. Não resistimos a tentação de comprar algo novo e de preferência brilhante. Depois que inventaram os led’s então, tudo ficou mais brilhante na nossa vida. A TV, o telefone, o micro-ondas e até a máquina de lavar roupas agora vem com suas dezenas de luzinhas e ainda toca uma musiquinha quando termina uma tarefa. Tudo muito útil.

Aliás, acho que tem gente que viaja apenas para ter um subterfúgio para carregar mais algumas coisas para dentro de casa. Voltam com as malas abarrotadas de novos itens que substituirão antigos que serão devidamente remanejados e instalados em novos locais. Dificilmente  conseguimos resistir ao apelo de utilidades importantes como um berimbau da Bahia, um cocar do Mato Grosso ou uma nega na janela de Minas Gerais.

Mas também convenhamos, esse intenso comércio de coisas precisa existir para que as pessoas possam viver e se sustentar. Se de uma hora para outra todos resolvessem viver como o filósofo Grego Diógenes de Sinope que vivia num barril e tinha como bens apenas uma tigela, seu cajado e sua túnica, certamente 90% da população mundial teria que morrer de fome, virar faquir ou viver de luz.

Só não consigo imaginar em que ponto se dará a death line, o ponto culminante, o ápice em que o planeta se encontrará de tal maneira lotado de tralhas que teremos que começar a jogar coisas para fora. Aliás, aposto os pés de uma máquina de costura velha, atualmente servindo de aparador, que a verdadeira missão da sonda Americana Curiosity não é procurar se existiu vida em marte, mas sim, encontrar uma maneira de transformar aquele planeta em lixão espacial e, consequentemente, abrir espaço para mais quinquilharias aqui no nosso fofo e atulhado planetinha azul.

 

Publicado no jornal Nova Folha de 27 de junho de 2014

Ignis fatuus

person

Lembranças da nossa infância costumam surgir de acordo com a época que estamos vivendo. Nestes dias de junho sempre me recordo de fogueiras. Muitas fogueiras eram acesas e espocavam por toda parte nos nossos jovens meses de junho. Nas escolas, nas igrejas, em empresas, enfim. Meia dúzia de amigos se reunia, arregaçavam as mangas a fazer uma fogueira de São João e logo estava pronta uma festança com quentão, pipoca, rapadura e alguma dança e cantoria, pois nunca faltava um violão perto de um foguinho. As pessoas mais habilidosas, com cola, tesoura e as finas varetas de bambu e papel de seda, dedicavam-se a confeccionar o balão que, no momento culminante da festa, era levado a iluminar o céu pelo calor do fogo de uma bucha de estopa embebida em óleo diesel.

A relação da raça humana com o fogo sempre foi muito intensa. Desde as cavernas o fogo nos aquecia e protegia nos momentos de frio e de perigo e também era o centro de todas as festas e comemorações. O fogo era uma espécie de pai para a humanidade, protetor e carinhoso, mas também severo e perigoso.

Em menos de cinquenta anos transformamos o lugar em que vivemos em uma metrópole, onde viver mudou de significado. Quem nunca se emocionou ao ver subir um balão colorido e brilhante numa fria noite de São João, nem saltou uma fogueira de mãos dadas e com o coração palpitando com a força de um sentimento desconhecido, que recém despertava, nunca terá a oportunidade de sentir a vida como ela já foi.

Daqui para frente, haverá cada vez menos espaço para a vida simples. Os balões foram extintos e as festas juninas, hoje raras, provavelmente seguem o mesmo caminho. Estamos nos transformando numa multidão. Fria, sem fogo e com medo. Muito medo. Não percebemos, pois as mudanças são sutis e paulatinas, mas o medo tornou-se a força mais transformadora do mundo contemporâneo. Por medo de incêndios abandonamos os balões e as fogueiras. Adotamos os shoppings por medo de assaltos e o toque de recolher, à noite, está se tornando uma rotina voluntária de todos.

Aos poucos, até o estado, que surgiu justamente para dotar a humanidade de lei e ordem, perde seu poder e torna-se instituição coletora de dados para estatísticas de fatos consumados.

Cercamos nossas casas e na clausura, cada vez mais solitários, sequer ousamos abrir as janelas. Preferimos olhar na fria tela pixelada de leds, a imagem de alguma praia ensolarada ou do crepitar imaginário de um singelo foguinho num filme antigo qualquer.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 20 de junho de 2014.

 

 

Femme Fatale

person

Lourdes Regina, a Lurdinha para os de casa, cansou. Definitivamente ficou de mal. Subiu ao alto da cumeeira do celeiro e deixou o pobre pendurado, de ponta cabeça, na rosa de ventos logo abaixo do rabo do galo. Agora ele ia ver só com quem tinha se metido! E se dependesse dela, tão cedo ele não voltaria para o seu lugar na mesinha junto aos outros.

Não se brinca com o coração de uma mulher apaixonada. Ainda mais, como no caso dela, quando o amor em abundância transborda por todos os poros de seu corpo. Amor que transforma suas noites em um mar revolto de ondas sucessivas de calafrios que arrebentam nas areias brancas do seu torso e retornam ao mar profundo carregando suores e calores profanos, endereçados a quem ela ainda não faz a menor ideia de quem seja.

Ela sabe que toda essa paixão que lhe causa esse ardor intenso e arrebatador pertence a alguém. Só não sabe, ainda, quem é o seu príncipe encantado. O cavaleiro celestial em seu corcel alado que a tomará nos braços e a levará ao paraíso dos amantes, entre beijos ardentes e carícias extremas. Ela sabe que seu lugar no Éden do amor está garantido, pois sente que todo o pulsar do seu coração está destinado a este ser muito especial.

Ela detesta o dia dos namorados. Não suporta todas essas frangotas felizes carregadas de bombons e flores e arrastando seus namorados pelas ruas, pelos cinemas, pelos cafés e ela lá, transbordando de amor, sem encontrar ou sequer descobrir quem é aquele que por ela, obviamente, também espera exuberando   amor e paixão. Tudo culpa daquele unzinho que agora vai ficar lá, pendurado sob o rabo do galo que é pra aprender a não se meter a besta com ela.

Ultimamente ela fizera de tudo que sabia para encontrar o seu príncipe e tão sonhado amante das noites febris. Rezas e promessas e mais rezas, súplicas e todas as mandingas conhecidas e outras inventadas. E o que aquele traste fizera? Nada. Nadica de nada, mais nada ao quadrado, elevado ao cubo. Isso era uma desfaçatez, uma afronta. Logo com ela que sempre fora direita, que nunca faltava a missa, não dizia palavrão. Agora era guerra! Lurdes Regina cansara de ser boazinha e decidira ir a luta e seu primeiro ato de guerra acabara de ser tomado. Enquanto ela não descobrisse o fiel depositário da sua felicidade e do seu amor, ele ficaria cumprindo o seu castigo.

Quando se afastava do celeiro, ainda virou-se e sentenciou: “E se deixar cair o menino Jesus o problema é teu!”

A partir de agora tudo seria diferente. Vestiu sua leg mais justa, capturou uma selfie fazendo pose sensual no espelho ovalado do roupeiro do quarto dos pais e mudou seu perfil no Facebook para Lu. Fatal. Agora vai.

 

Publicado no Jornal Nova Folha em 06 de junho de 2014

 

NFG_logotipo _web

Desnessessaire

person

Dia desses viajava no catamarã e não pude evitar de observar que mesmo com uma vista maravilhosa no lado de fora das janelas, a maioria das pessoas fica no celular ou então olhando para aquelas telas anti-pensamento que ficam na parte da frente dos barcos. Não sei qual a necessidade de ter aqueles televisores nas embarcações, mas estão virando uma febre nacional, pois já estão nos ônibus, nos trens, em restaurantes e até nos aviões. O engraçado é que para os catamarãs contrataram um sujeito (às vezes é uma sujeita) que fica explicando onde fica o Beira-Rio, o morro da polícia e etecetera e tal, mas será que os turistas vão ficar olhando a paisagem ou o vale a pena ver de novo naquela tele-tela? Aposto uma unha encravada contra um fusca zero, que eles não viajariam milhares de quilômetros para verem televisão. Tenho a impressão de que uma das duas coisas é inútil.

Aliás, às vezes fico pensando em todas as coisas inúteis que ouvimos, falamos ou que, de alguma forma, fazem parte da nossa vida. A lista é interminável. Bem que poderíamos ter uma espécie de desnessessaire sempre a nossa disposição. Algo semelhante àquela bolsa do gato Félix, só que ao contrário, que com um simples abrir de zíper, servisse para que pudéssemos nos desfazer do desnecessário.

Eu começaria com aquela televisão. Abre o zíper e, tchau!

O que vocês me dizem sobre um discurso de meia hora no horário político gratuito sobre o projeto de um partido para incrementar a importância da pamonha na vida sexual das formigas cortadeiras? Já para a desnessessaire, com candidato, TV e tudo. Ou então numa amistosa pelada entre amigos, aparece aquele chato distribuindo pontapé, canelada e bico por todo lado feito o Edmundo, lembram do animal? Bastaria abrir o zíper e mandar o sujeito para a desnessessaire, sem nem passar pelo chuveiro.

Seria uma ferramenta realmente útil na nossa vida. Ela serviria inclusive para nos livrar daqueles chatos com seus conselhos incríveis sobre coisas que já estão prontas. Sabe aqueles que tem ideias brilhantes (só na cabeça deles) e sugerem mudanças infalíveis sobre coisas que eles não entendem absolutamente nada?

Mas a desnessessaire também teria uma grande importância para a nosa saúde mental. Quando algum motorista, desses que andam por ai hoje em dia, forçar e te ultrapassar pela direita, pelo acostamento, e fizer horrores e te deixar fulo, simplesmente abra a desnessessaire, jogue a raiva dentro, sorria e siga a vida.

Ela é muito curta para gastar com raiva.

 

Publicado no Jornal Nova Folha de 30 de maio de 2014

Desapegação

person

A moda é desapegar. A vida simples agora é chique. Todos querem simplificar.

Volta e meia a humanidade se dá conta que está passando dos limites e tenta frear o andar da carruagem. Parar o mundo e descer. Vivemos como uma imensa manada e tudo vira mania. Olhar para trás e ver a vida simples que já vivemos um dia, está se transformando em outra delas. Quase uma compulsão para muita gente. Tenho, porém, cá comigo, a impressão de que no afã de simplificar complicam mais ainda.

Sonham com a vida simples, desde que ninguém tenha que lutar pela própria sobrevivência. Plantar o próprio feijão, cultivar sua própria horta, nem criar suas próprias galinhas. Queremos vidinha simples, mas com ar-condicionado, TV, celular e geladeira cheia em qualquer época do ano.

Não creio que o mundo atual seja demasiado complicado. Eu diria que estamos vivendo uma overdose. Uma overdose de mundo. Um mundo onde todos estão conectados e gritam ao mesmo tempo o que lhes vem à cabeça em redes de computadores, ditas sociais. Estamos viciados nesta mania e não conseguimos mais desconectar. Desconectar, talvez, seja a palavra que procuramos, não desapegar ou simplificar.

O mundo está cada vez mais emaranhado e a leitura de microblogs, blogs e trocas de informações em redes universais tomam cada vez mais nosso tempo. Confesso, entretanto, que estou deveras impaciente com essas redes de fofocas. Fala-se e escreve-se muito e muito mal. Muita asneira. Não ando tendo paciência com quem quer pregar moralidade e salvar o mundo, mas não aprendeu sequer a escrever na nossa língua. Por isso fico com os livros. Leio o que me interessa e quem realmente tem algo a dizer.

A leitura tornou-se um hábito, para mim não só prazeroso, mas também profissional. Mesmo assim, não é raro ocorrer de não ler um livro até o fim. Quando isso ocorre, fecho o dito e o guardo na estante para, quem sabe um dia, voltar a ele. Enquanto isso ele ficará lá. Quietinho.

O problema da internet é que os chatos ficam o tempo todo cutucando, provocando, repetindo e testando nossos limites com suas asneiras. Concordo que todo mundo tem direito a uma opinião, por mais idiota que seja e cabe a seus interlocutores, dar-lhe ouvidos ou não. O problema é que eles ficam o tempo todo jogando seus "livros" na nossa cabeça.

O que o mundo está precisando não é desapegar, precisa desconectar e pegar um livro, ver um bom filme e ouvir uma boa música. Assim, finalmente poderemos ter a chance de recalibrar nossos sentidos com o que realmente interessa.

 

Publicado no Jornal Nova Folha edição 1247 de 02 de abil de 2015

A arte de esquecer

person

Frequentemente nossa memória nos prega algumas peças que são difíceis de compreender. Esquecer um compromisso, deixar de realizar uma tarefa importante, não lembrar o nome de alguém conhecido, são transtornos que podem ser frutos da nossa distração ou também o resultado das escolhas feitas pela nossa própria mente. Selecionamos inconscientemente o que pretendemos guardar ou não, de acordo com o grau de importância que damos a um determinado fato ou acontecimento.

Iván Isquierdo, Argentino naturalizado brasileiro é uma das maiores autoridades mundiais em memória. Responsável pelo Laboratório da memória da PUCRS é autor de livros como Memória (Editora Artmed), Questões sobre memória (Editora Unisinos) e A arte de esquecer (Editora Vieira & Lent).

Ele nos ensina que nossa memória é um intrincado mecanismo de reter informações e que poderia não ser tão eficiente se não tivéssemos a capacidade do esquecimento. Nossas lembranças precisam ser constantemente oxigenadas e renovadas e esquecer faz parte de um processo de aprendizado.

Quando somos estimulados por cheiros, sabores, cores ou sons, determinadas lembranças  brotam, amiúde, em nossa mente, levando-nos a reviver momentos e situações já dadas por esquecidas.

Mas o mestre Izquierdo também nos chama a atenção para um fato aparentemente paradoxal de que o melhor da nossa memória não é a capacidade de lembrar todos os fatos da nossa vida, mas a capacidade de esquecimento que temos. Temos ilhas de lembranças aflorando, aqui e ali, num mar esquecido de acontecimentos que já vivenciamos em nossa vida.

Quando somos ofendidos ou atacados podemos escolher o que faremos com estas lembranças. Podemos mantê-las para sempre vivas como se ainda estivessem acontecendo, reprimi-las num canto qualquer da nossa memória ou podemos simplesmente esquecê-las. Tudo depende das nossas escolhas.

O esquecimento é um dom natural. Uma dádiva que pode ser tão comemorada quanto o fato de ter uma boa memória. Pode-se, literalmente, queimar a própria vida remoendo mágoas e arquitetando vinganças. Ou, ao contrário, abrir a mente para o perdão, esquecer o que nos incomoda e partir em frente.

Izquierdo provoca a nossa reflexão quando nos apresenta uma sentença desafiadora:

"somos aquilo que lembramos, mas também o que decidimos esquecer".

 

Publicado no Jornal Nova Folha de Guaíba em 24 de janeiro de 2014.